Crime Sem Saída

Nova York sitiada... de novo

Por Pedro Guedes

Protagonizado pelo astro de “Pantera Negra” e produzido pelos diretores de “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, “Capitão América: Guerra Civil”, “Vingadores: Guerra Infinita” e “Vingadores: Ultimato”, “Crime Sem Saída” obviamente tem muito a ganhar, em termos comerciais, com o fato de ter envolvido tantos profissionais que já trabalharam nos filmes da Marvel – afinal, o afeto de boa parte do público em relação ao “universo estendido” planejado por Kevin Feige é inegável. No entanto, a relação entre este longa e qualquer um produzido pela Marvel termina por aí, já que, na prática, o objetivo do diretor Brian Kirk (responsável por alguns episódios de “Game of Thrones”) é ancorar a história em um universo mais próximo da realidade e – não menos importante – influenciado pela atmosfera dos filmes policiais da década de 1970.

Escrito por Adam Mervis e Matthew Michael Carnahan“Crime Sem Saída” se passa no presente e começa nos apresentando a Andre Davis, um policial de Nova York cujo pai morreu em combate há anos atrás e que agora atua ao lado da detetive Frankie Burns. Depois que dois assaltantes promovem uma chacina que deixa nove policiais mortos, Davis percebe que a única forma de encontrar os assassinos será fechando todas as entradas e saídas que ligam a ilha de Manhattan ao resto de Nova York, interditando 21 túneis e pontes no processo. Assim, o policial passa a madrugada inteira correndo pelas ruas a fim de tentar capturar os meliantes – o que ele não espera, porém, é que a história por trás do crime seja bem mais complexa do que parecia a princípio, revelando-se uma imensa conspiração que pode lhe fazer questionar uma série de princípios e certezas particulares.

De um ponto de vista estilístico, Brian Kirk não esconde sua vontade de resgatar o espírito de obras como “Operação França”, “Serpico” e outras que giram em torno de policiais e que se passam em plena década de 1970. Não que “Crime Sem Saída” se passe naquela época; apenas se inspira na atmosfera das produções daquele período (algo que a trilha de Henry Jackman e Alex Belcher faz questão de ressaltar de maneira óbvia, surgindo praticamente ininterrupta e comentando em excesso todas as cenas da narrativa). Inclusive, no que diz respeito à construção de seu “universo”, o filme de Kirk não poderia ser mais condizente com a atualidade, já que todos os personagens se comunicam através de celulares, usam aparelhos ultratecnológicos e eventualmente dependem destes para concluir/avançar em suas investigações. Neste sentido, “Crime Sem Saída” funciona até mesmo como um comentário a respeito do gênero “policial”, contrapondo a atmosfera dos anos 1970 aos avanços da tecnologia moderna.

Por outro lado, o roteiro de Adam Mervis e Matthew Michael Carnahan não é tão bem-sucedido quanto a direção de Brian Kirk: incapaz de trazer frescor a uma premissa simples, batida e já explorada em dezenas de outras obras, a dupla ainda se atrapalha ao tentar se aprofundar nas discussões sociais propostas ao longo da narrativa, atirando para todos os lados sempre que começa a entrar em questões importantes como o papel da polícia, o racismo que existe dentro da instituição e os direitos humanos de criminosos cruéis. Desta maneira, sempre que o roteiro parece chegar a alguma conclusão a respeito de como a polícia comete atos de extrema barbárie, por exemplo, logo em seguida aparece uma frasezinha de efeito que, ao tentar condenar os bandidos, acaba soando mais como uma defesa da polícia em si. Em compensação, o terceiro ato se mostra um pouquinho mais disciplinado ao expor o racismo existente dentro de uma organização que, em tese, deveria proteger todos os cidadãos impreterivelmente, dando-se ao luxo, inclusive, de trazer uma reviravolta que, embora absurda, funciona como uma crítica à tendência que boa parte da polícia tem de atirar primeiro e perguntar depois.

Dotado de sequências de ação intensas, brutais e chocantes em vários momentos, “Crime Sem Saída” ainda é fortalecido pelo fato de o espectador já estar familiarizado com vários dos atores presentes em cena, sendo beneficiado pela performance durona e rígida de Chadwick Boseman, pela ambiguidade do veterano vivido por J.K. Simmons e pela irresponsabilidade da detetive interpretada por Sienna Miller. Só é uma pena, no entanto, que o roteiro seja bem menos profundo do que acredita ser e que a direção ocasionalmente exagere na obviedade e no didatismo barato.

 

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