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Cría Cuervos

Por que se vai?

Por Pedro Sales

Festival de Cannes 1976

Cría Cuervos

A infância é o período da vida que mais suscita lembranças permeadas de nostalgia e carinho. Aparentemente, sentir falta das brincadeiras infantis, das poucas ou inexistentes preocupações e responsabilidades é um sentimento onipresente, seja na vida adulta ou nos adolescentes recém saídos dessa fase. Em “Cría Cuervos” (1976), vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes 1976, o diretor espanhol Carlos Saura rompe com a visão idealizada dos tempos de criança. Na obra, o cineasta trata da infância com uma melancolia pungente e uma desolação que surge do abandono parental advindo da orfandade. O papel de cuidador das crianças na casa é transferido para outras, mas, no âmago, as próprias irmãs cuidam de si próprias. As pequenas se unem, dançam e olham com desconfiança quem vem ocupar o lugar outrora da mãe. 

Logo após a morte do pai, as irmãs Ana (Ana Torrent), Irene (Conchi Pérez) e Maite (Maite Sanchéz) passam a ser criadas e tutoradas pela tia Paulina (Mónica Randall). O tempo de luto das garotas é prontamente sufocado pelo reestabelecimento da ordem familiar sob a tutela da tia, vista por elas como uma figura tirânica de autoridade. A morte tinha sido anteriormente experenciada pelas crianças, pois a mãe (Geraldine Chaplin) havia falecido há pouco tempo. Portanto, a perda é elemento central do filme. O leitmotiv (tema repetido) da canção Porque te vas?, de Jeanette, sintetiza bem o sentimento, ou melhor a incompreensão das crianças diante da morte. Por mais que a cena em que dançam seja um claro momento de descontração, a pequena Ana, quando murmura os versos iniciais, parece meditar sobre a música, reforçando principalmente a saudade da mãe. A maternidade era o laço mais forte para ela. Saura demonstra esse vínculo entre mãe e filha ao utilizar Geraldine Chaplin para interpretar a mãe e a Ana mais velha. O pai, por outro lado, era na cabeça da criança o responsável pela morte dela, por isso ela “interfere” no seu destino e lava metodicamente o copo em que ele bebeu por último.

O controle da vida e da morte que Ana pensa ter é um elemento recursivo da imaginação. Munida do que ela acredita ser um veneno, a garota passa ser uma juíza do destino das pessoas ao seu redor. O título do filme, que advém do ditado espanhol “cría cuervos y te sacarán los ojos” -–  algo como “crie corvos e te arrancarão os olhos” – , dialoga com essa situação. É como se a pequena fosse tão traiçoeira quanto o corvo que pode trair seu criador. Em “Cría Cuervos“, as memórias e as imaginações acabam se amalgamando, tornando-se uma coisa só. Saura demonstra frontalmente essa ludicidade do criar e recriar das crianças em uma cena que Ana se vê no telhado, pula e voa. A câmera, de forma subjetiva, registra essa suspensão tanto da realidade quanto da gravidade em si. Em outros momentos, a criança se insere mentalmente, como uma memória imaginada, nas brigas dos pais, na convalescença da mãe, sempre deixando cinza para o público esse tênue limite que divide o real e o imaginário. Tais sequências só atingem dramaticidade em razão da performance de Ana Torrent. A menina que anos antes encantou o mundo com “O Espírito da Colmeia” (1973), de Victor Erice, aqui contrasta o mundo infantil com o adulto. O seu olhar complacente e quieto parece entender as nuances das discussões puramente adultas, a dor e o desejo de morte. Ao mesmo tempo, ela quer brincar de esconde-esconde e dançar.

Junto da temática que envolve luto, memória, imaginação e dilemas em uma infância difícil, Saura tece uma alegoria política no longa. Realizado em pleno regime franquista na Espanha, quando o diretor era considerado um dos grandes opositores da ditadura de Francisco Franco, a figura dos militares é alvo de críticas latentes. O pai falecido é visto como motivo da morte da boa mãe. Em uma análise de esfera moral, o cineasta demonstra que ele a traía com frequência. Outro militar também é infiel e se incomoda ao ser flagrado pela criança. O diretor, portanto, demonstra certa hipocrisia da autoridades, as quais buscavam ser vistas como bastiões da segurança e da moral. As formalidades também são tratadas com uma ponta de ridicularização como os vários homens em pé, fardados, velando o corpo de um oficial. A burguesia não escapa da visão de Saura. A tia exerce sua autoridade de forma arrogante, ensina etiqueta impositivamente. Além disso, o zelo excessivo pela ordem e as constantes rusgas com as crianças, sinal de sua incapacidade afetiva para ser tutora, a distancia cada vez mais delas.

Cría Cuervos“, ao optar por um pessimismo e em alguns momentos morbidez na infância, contrasta efetivamente com a idealização tão comum nessa fase da vida. A própria Ana, já mais velha, fala, olhando diretamente para a câmera, que sua infância foi triste, que poucos foram os momentos felizes, como a visita ao campo. A opinião da protagonista em sua versão adulta é também a mesma do realizador, ele diz que “Cría Cuervos é um filme triste, sim. Mas isso faz parte da minha crença de que a infância é uma das partes mais terríveis da vida de um ser humano”. Carlos Saura justifica tal posicionamento afirmando que a incerteza, a indecisão e a passividade dessa fase são angustiantes. De certa forma, todos esses sentimentos se materializam em tela. A tristeza do filme surge do desamparo em que as meninas estão submetidas. A repentina mudança surgida da perda é acrescida da incerteza de como lidar com o luto e não saber responder ao título da música: “Por que se vai?”.

5 Nota do Crítico 5 1

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