Cow

Outra perspectiva

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

Cow

O novo projeto de Andrea Arnold é um documentário que atrai alguma atenção por sua temática inequívoca: o dia-a-dia de uma vaca. Não por acaso o título tampouco deixa dúvidas, “Cow” é um documentário sobre o cotidiano do animal em uma fazenda produtora de leite.

Partindo do nascimento de um bezerro, o filme começa sua trajetória cíclica até o fim da projeção sem nenhum tipo de narração, contextualização ou localização. Assim, para servir de guia para o espectador, a objetiva frequentemente foca o número que indica a protagonista mas pretende transformar a história de sua personagem em algo comum, e antinatural, à realidade das vacas ao redor do mundo. Dessa maneira, conforme o dia-a-dia vai sendo mostrado, uma expectativa é gerada quanto ao fim desse ciclo, já que o público sabe qual o fim de uma vaca em uma fazenda. Porém, isso não muda o impacto final desse lento desenvolvimento, pelo contrário, à medida que o tempo passa, acompanhar a vida dessa vaca traz à tona a falta de empatia pela vida dos animais, a objetificação direta de suas vidas em prol da produção. O nascimento, o leite, o pasto… tudo se torna uma mera formalidade a ser cumprida rotineiramente.

E é justamente onde Arnold consegue um brilho particular na obra, pois se aproxima de maneira tão incisiva da realidade da vaca que a representação dessas tensões fica clara na própria dinâmica das imagens, sempre incessante. Apesar disso, “Cow” sofre com o ritmo de sua própria temática, onde a repetição e o desgaste são inevitáveis, transformando a reta final em uma longa espera pela resolução. Mas rapidamente esse desejo se transforma em brutalidade e o público se vê desnorteado. O curioso é que não se trata de uma surpresa, ou mesmo de uma grande quebra no protocolo do que estamos vendo ao longo da projeção, contudo a violência da imagem e a força do som são capazes de quebrar a passividade do espectador diante da tela. A questão se direciona de maneira unilateral: uma explosão que foge à monotonia da normalização da violência. É como se a cineasta abrisse um debate que todos sabem como termina.

Sem dúvida esse é o maior mérito de “Cow”, desenvolver com paciência um documentário que não propõe uma discussão por intervenção, apenas os fatos sendo expostos na perspectiva do próprio animal. Não por acaso a câmera se mantém a maior parte do tempo próxima a lama. Porém, é na montagem que as coisas realmente ganham uma nova abordagem, pois os cortes conseguem construir uma série de expressões que não necessariamente estão dentro do contexto ali estruturadas. Por exemplo, o ato da vaca de encarar a objetiva passa a ter um novo significado quando as imagens são organizadas de uma maneira próxima ao drama. Essa montagem não perde o norte de suas intenções em nenhum momento e é capaz de guiar a experiência pelo frenesi das situações, da velocidade dos cortes e das perspectivas que se fragmentam. Não por acaso, a obra utiliza parte de seu tempo para nos mostrar como está o primeiro bezerro, seu crescimento e seu cotidiano. A intencionalidade é clara, criar uma representação simétrica de como a vida do filhote será quando chegar na idade da mãe.

Por todas essas razões, “Cow” é um documentário que não se apresenta na convenção, apenas na exposição dos fatos e no esgotamento de suas imagens, sem procurar um sentido particular nas mesmas, apenas organizando a estrutura de sua apresentação para construir a possibilidade de conscientização com o progresso do filme. Ainda que o balão centralizado e os diálogos em língua inglesa ajudem a localizar a região que o projeto é rodado, o grande foco não são as relações de trabalho, muito menos as pessoas, mas sim o impacto dessas na vida de uma protagonista que se encontra em diversos países.

Trailer

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