Colectiv

Um coletivo em colapso

Por Fabricio Duque

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

Exibido paralelamente nos festivais de Veneza e de Toronto de 2019, o documentário “Colectiv”, do documentarista Alexander Nanau, que aborda a “podridão” do sistema público de saúde do país (“nepotismo, politização, conflitos de interesse, corrupção perversa” dos diretores “intocáveis”, que “fazem sucesso com o dinheiro da população”), focando nas vítimas que foram queimadas no incêndio em uma boate na Romênia (e em especial na problematização das mortes por bactérias hospitalares, mais resistentes da Europa), corrobora a característica marcante do cinema romeno, que é a forma direta em apresentar a história. Não há suavização por ações sentimentais, pelo contrário, é a dureza do assistir que conduz o espectador, porque representa a realidade da própria vida. Há uma emoção pragmática e uma encenação realista. O filme desperta um incômodo indignado pelo trabalho dos jornalistas honestos.

Nas primeiras legendas do filme, de apresentação preâmbulo, somos ambientados com a notícia de que no dia 30 de outubro de 2015, ocorreu um incêndio durante um show na discoteca Colectiv, em Bucareste, matando na hora 27 jovens e ferindo outros 180. Indignadas com o fato de a discoteca está funcionando sem saída de emergência, as pessoas saem às ruas contra as autoridades corruptas. protestos em todo país força o governo Social democrata a renunciar. Para acalmar a fúria das pessoas é nomeado um governo de tecnocratas politicamente independentes. Eles tem o mandato de um ano até as próximas eleições gerais. Mas 37 vítimas de queimaduras morrem em hospitais durante uns quatro meses seguintes ao incêndio. A mensagem do filme, extremamente pessimista com desesperança objetiva, outra característica do comportamento romeno de ser, é a de que tudo é uma questão de decisão política. Um jogo de “mafiosos sem escrúpulos que não se preocupam com o contexto”, tampouco com vidas (“mortes por um erro de comunicação”), porque “não somos mais humanos e os médicos não são mais seres humanos”, lamenta-se, principalmente quando um governo deposto ganha as eleições por uma maioria esmagadora. Medo? Fábula do escritor José Saramago em “Ensaio sobre a Lucidez”?

A câmera documental, lembrando a semelhança estrutural com o filme “O Processo”, de Maria Augusta ramos, de um querer ser mosca (quase invisível, porém ativamente presente, ainda que não interfira em nada), filma a espera do falar dos familiares das vítimas. É como se tudo fosse uma comissão da verdade prestes a expor todos os erros, crueldades e hostilidade desta sociedade máquina. Cada um conta os problemas sociais que levaram a morte dos filhos ou de algum outro ente querido. A edição de “Colectiv” (uma metáfora à ideia de coletivo), brutal e crua na mudança das cenas, quase de violência atravessada e invasiva, retifica ainda mais o conseguir a tradução da essência da alma romena. Nós sentimos o desconforto, a respiração mais acelerada e choros. Tanto por nervosismo por ter que falar em público, como de emoção por reviver a tragédia. Cada um luta para que o silêncio passível não permita mentiras.

O filme intercala com as cenas reais da época do incêndio filmadas de dentro que foram divulgadas (pelos celulares da vítimas, mais do que um filme de terror por ser real). Assim essa edição acaba criando essa imagética perspectiva organizacional, que torna o público um investigador indignado-opinativo de um reverse não indicativo. Nós, não poupados de nada, analisamos essas imagens e nos tornamos também investigadores opinativos, junto com os dados descobertos e vazados dos procedimentos errados e das ações corretas. “Colectiv”, que integra a mostra competitiva da edição online do Festival É Tudo Verdade 2020, intercala o protocolo padrão do governo em seus discursos nas coletivas de imprensa. A investigação ganha força, apelo popular e opinião pública. O mais curioso é que aqui o gatilho comum da condução narrativa, que parece teatralizada e encenada para câmera, envolve o espectador neste ninho à moda do caso Watergate, porque é urgente e não pode perder tempo. Essa investigação, de descobrir pormenores, como detalhes da diluição do produto, mobiliza, com ou sem a música “Nothing More”, do grupo The Alternative Routes, feat. Lily Costner.

É curioso, altamente perturbador, que isso soe ingênuo a nossos olhos se mudarmos a geografia  para o Brasil. Se lá os desinfetante foram diluídos até 10 vezes, causando ineficácia ao efeito, e jornalistas pedem um posicionamento mais enérgico do Ministério da Saúde, aqui, os casos são esquecidos quando a noite chega. Boate Kiss? Mais de 140 mil mortes por Covid-19? Isso não causa interesse, tanto nos políticos, quanto na população, que só pensa na praia em um dia quente, uma cerveja no bar da esquina e na reabertura dos cinemas. Será que aqui nós somos ainda menos humanos? Se lá, os protestos resolvem com “indiferença mata” e “dilua a corrupção”, nesta terra tupiniquim, florestas são apagadas e indivíduos esquecidos. Se lá, jornalistas são aplaudidos pelo trabalho social, aqui, entram na pauta da proteção. Estamos mais egoístas, porque continuamos a nos reinventar errado. Nos dois países, assistimos um mundo em colapso. “Segredos são feridas”, diz-se com a tom documental que encontra a tensão dos filmes de ficção (mas que não “mede palavras para descobrir a verdade”). Somos ficção agora? E/ou uma analogia da robotização da vida com mãos mecânicas?. Assim como “Colectiv” não consegue responder nossos anseios e angústias mais imediatas, nós também saímos do filme com a expressão (já quase clichê) de que o outro é realmente nosso inferno. E queima. Fisicamente.

Trailer

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