Pedagogias do cinema e curadoria

Cobertura da 16a Mostra de Cinema de Ouro Preto

CineOP 2021 e as Pedagogias do Cinema e Curadoria

Por Vitor Velloso

O debate em torno de “Pedagogias do cinema e curadoria” com os convidados: Ana Paula Nunes – professora da UFRB | BA,  Nicolás Guzmán – programa Cero en Conducta – Universidade do Chile e mediação de Adriana Fresquet – curadora da Temática Educação | RJ, foi particularmente interessante para compreender as diferentes perspectivas entre o processo pedagógico e cinematográfico do Brasil e do Chile. Como texto de apresentação sugere: “O problema curatorial é fundamental para atender às necessidades e decisões pedagógicas atuais. O objetivo da mesa é abordar a importância de disponibilizar acervos públicos digitais para atualizar o currículo e articular novos processos pedagógicos. Vamos enfocar a presença atual de acervos que vêm desde a década de 1990 e que estão se tornando disponíveis na internet, sendo uma referência para pesquisa de metodologias de práticas do audiovisual na educação.” 

A fala inicial de Ana Paula Nunes começou com uma parcela referencial de seus trabalhos, citando inclusive, Vítor Reia-Baptista e Mahomed Bamba. Sobre o primeiro, a professora diz que: “Eu aprendi que todos os filmes têm uma pedagogia intrínseca, ele classificava em três tipos: afirmativa, informativa e herege”. É particularmente importante que haja essa “categorização”, ainda que não possa ser dada como fator de categorização único, para que possamos compreender que pedagogia e cinema caminham de maneira conjunta. Falou brevemente de cada uma dessas formas pedagógicas cinematográficas, mas a “afirmativa” chama atenção para um debate antigo que ocorre no cinema brasileiro. “O grande cinema, hollywoodiano, e os que seguem seus moldes, geralmente, não necessariamente, segue a dimensão de uma pedagogia afirmativa, ou seja, confirma, ratifica, o status quo e os valores dominantes. Relaciona através da pedagogia da moral como veículo de transmissão de mensagens e a educação bancária, que Paulo Freire criticava.” 

Recentemente um conhecido crítico de cinema atacou nas redes sociais quem se opunha ao dito “cinema comercial”. Não trata-se de opor, mas tentar expôr o processo imperialista ali vigente. Está claro que não irei propor uma resposta mais longa que isso, propor alguma discussão série em torno de um pensamento criacionista e defesa de um cinema “puro”, acreditando na força da “moral” sem compreensão de contexto histórico, é perda de tempo.

Ana Paula ainda explicita que a “informativa” seria:  “como o próprio nome diz, questiona os principais dogmas vigentes, estabiliza os valores dominantes. Uma corrente cinematográfica que ganhou força nos anos 60 e 70.” E a herege: “não mais questiona, mas procura subverter e minar por dentro o sistema. Ele exemplifica como a filmografia de Buñuel”.

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Porém a professora tem trabalhado para defender a ideia de uma pedagogia afirmativa que pode refletir a partir de uma ótica distinta, sem reafirmar “o discurso hegemônico, ao contrário, desconstrói estereótipos, descoloniza nossos olhares, se posiciona como afirmação de um mundo novo, a partir de ações afirmativas”. Acredito que aqui haja um desafio interessante, mas complexo o bastante para repensar uma série de estruturas da própria categorização. Ela propõe “Café com Canela” como exemplo de sua construção. 

Nicolás Guzmán contou sobre a experiência chilena ao tratar de pedagogia e cinema, com o exemplo do “Cero en Conducta”, onde parte de seus desafios e desejos é: “Mostrar o cinema chileno, através da materialidade, das margens, dos sons. Como abordar e aceitar o cinema a partir de suas materialidades…no ato de criação, através da materialidade, que no fundo são selvagens, cremos que os estudantes têm a possibilidade de enfrentar o mundo… nós criamos as instâncias é pensar o mundo através da imagem”. A proposta é bastante profícua, mas parte dos desafios a serem enfrentadas foram sintetizados na pergunta de Adriana Fresquet que pergunta sobre a acessibilidade de todas as escolas, se teriam como acessar esse acervo. E Nicolás respondeu que:

 “Todas as escolas poderiam ter acesso a esses materiais, ao programa, existe um programa chileno, com as escolas chilenas. As condições materiais, para gerar esses espaços, em geral, para uma conectividade, existem muitas escolas públicas que tem sim, mas eles teriam que realizar materiais com um certo padrão de qualidade, e isso tem um custo… O cenário em Santiago é diferente dos demais…E também existem páginas que nós temos, que você não pode ver fora do Chile, mas mostra as estreias contemporâneas que temos, quase todos foram financiados por fundos públicos”. Acompanhe a cobertura completa do CineOP 2021 no Vertentes do Cinema!

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