16 CineOP Ideologias e políticas de cinema e audiovisual nos anos 90 e em 2021

Cobertura da 16a Mostra de Cinema de Ouro Preto

CineOP e as Ideologias e políticas de cinema e audiovisual nos anos 90 e em 2021

Por Vitor Velloso

O segundo do debate do primeiro dia integral da 16ª CineOP buscava um diálogo sobre as “Ideologias e políticas de cinema e audiovisual nos anos 90 e em 2021”, contando a presença de Leandro Saraiva – professor e roteirista | SP, Melina Izar Marson – gestora cultural, pesquisadora, curadora e produtora | SP, Orlando Senna – cineasta, escritor e jornalista | BA, com a mediação de Pedro Butcher – professor, crítico de cinema e pesquisador | RJ. O debate procurou tratar ““do que estava em jogo, como política e ideologia no tratamento da cultura, mais especificamente do cinema e do audiovisual, durante a década de 90 no Brasil, nas gestões de Fernando Collor de Melo, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e como está a situação das políticas públicas federais em anos recentes, após o golpe jurídico/legislativo para a interrupção do mandato de Dilma Rousseff, sucedido pelas gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em curso. Entre os anos 90 e os últimos cinco anos, o que permaneceu, o que foi ampliado e o que retroagiu nas relações das atividades do audiovisual com o Estado?”. 

Melina, que possui um estudo amplo sobre cinema e políticas de Estado, que escreveu a obra “Cinema e Políticas de Estado: Da Embrafilme à Ancine” realizou uma síntese interessantíssima sobre a primeira metade da década de 90 e as consequências disso para a Retomada: “é o gerenciamento de mercado. O dinheiro é público mas quem escolhe o que vai ser investido é o mercado”. Não por acaso é possível falar de uma continuidade rigorosa que os governos promovem. Trata-se de um alinhamento político, formalizado pela mentalidade liberal, que todas as bandeiras seguintes continuaram nesse projeto, com maior ou menor intensidade, com ou sem méritos. “Ou seja, tem uma relação direta entre o Cinema da Retomada e a política cinematográfica das leis de incentivo.”

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A conclusão fica clara se tomarmos de empréstimo que a Ancine se tornou e esse desmonte generalizado que vemos estamos presenciando atualmente. Que Melina traz números concretos do processo de desarticulação promovido pelo atual Secretário Especial de Cultura, Mário Frias, que sucedeu Regina Duarte após vexaminosa passagem (com a coroação na famosa entrevista), que por sua vez ocupou o cargo após Roberto Alvim fazer menção à Goebbels (Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista). “Nos últimos cinco anos, o mecenato vinha mantendo uma média acima de 1 bilhão. Da gestão de Mário Frias para cá, as coisas vêm mudando muito. De Janeiro pra cá foram 140 milhões de isenção fiscal. Ou seja, menos de 10% do ano anterior.” A pesquisadora ainda lembra que essa isenção não vale apenas para cinema, mas sim todas as artes e que o tempo médio de aprovação que já foi de dois meses, hoje pode chegar a 1 ano. 

Não por acaso, Leandro Saraiva, em seguida, debateu a necessidade de descentralização da produção, a partir da regulamentação do estado em ações que possam alcançar a dimensão cultural a partir de diferentes territórios. Algumas tentativas foram boicotadas, ou fracassadas, ao longo dos anos, durante o período ativo da Ancine. Uma delas é “o projeto de regulação dos VODS, dos Streaming, que foi feito, discutido e apresentado e abortado. Como peça central do desmonte que estamos enfrentando”. Ou seja, a clara inclinação ao que, no debate anterior, Alfredo Manevy expôs: “Com a desregulamentação do nosso mercado audiovisual… Eu poderia definir que o Brasil entra na economia mundo como consumo de audiovisual e não como produtor de uma cinematografia própria… Basta que nós nos ofereçamos como um mero mercado de consumo”. 

Encerrando o debate, Orlando Senna falou sobre a experiência do “DocTV” onde a relação de distribuição e exibição fornecia uma excelente forma de negócio. Orlando comentou também sobre uma tentativa de sair do atual isolamento que o Brasil vive na América Latina, vivida nos primeiros governos dos anos 2000, onde ocorreu uma tentativa “de organizarmos um mercado comum Brics, ou seja, um mercado comum de produção e exibição dos 5 países Brics funcionando na mesma direção, funcionando como uma grande empresa multiestatal de produção e distribuição audiovisual.” 

E que essa tentativa de teve como ponto central “os pontos de cultura, são bons exemplos. Esse desenho administrativo esteve lastreado nos três aspectos da cultura, também do audiovisual, simbólico, social e econômico.” 

O debate foi uma contundente continuidade da mesa anterior sobre “Memória em diferentes tempos” e conseguiu ampliar para o espectro cinematográfico, uma necessidade de compreensão do âmbito cultural a partir de um recorte mais materialista. Está claro que a tautologia parece demasiadamente óbvia, mas em tempos presentes é necessário retornar aos fatos para que a desinformação não afete o raciocínio.

A 16ª CineOP segue a todo vapor e possui uma programação com 116 filmes, debates e aulas mestras que vão até o dia 28. Continue acompanhando no Vertentes do Cinema a cobertura!

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