Cidade Pássaro

A odisseia em quebra-cabeças

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim de 2020

Exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim 2020 em uma sessão majoritariamente brasileira, “Cidade Pássaro” é um metáfora-puzzle, um quebra-cabeças de existencialismo social, que se monta pela adaptação ao novo ambiente, que por sua vez constrói o indivíduo e sua linguagem comunicativo, a característica principal de elo e conexão. Seu realizador Matias Mariani imprime uma sensorial cidade cotidiana. Uma São Paulo (viva e morta ao mesmo tempo) que se descortina na normalidade vivenciada a cada dia, captando a essência mais fidedigna do olhar, especialmente particular a seus moradores da chamada “Selva de Pedra”. Sim, é um universo próprio que se adentra, com suas arquiteturas descontínuas e decadentes. Que ao mesmo tempo integram e distanciam, como um jogo do próprio seio familiar: o de odiar estar junto, mas sentir saudade quando se está longe.

“Cidade Pássaro” é uma experiência que nos faz voar junto, com suas investigações-crônicas, imergindo nas dificuldades de estrangeiros imigrantes, que trazem as raízes em seus “corações e mentes”. Pode também ser um poema contemporâneo por enaltecer a diversidade do ser e do agir (de revolta, defesa e/ou resiliência). Ora forçando a mente a apagar a nova língua para preservar o passado. Questiona-se o que é ser um indivíduo enquanto participação social. O cinema daqui é de contemplação de instantes (um que de “O Homem das Multidões”, de Cao GuimarãesMarcelo Gomes), reverberando o etéreo das imagens coloquiais. São Paulo está atemporal e sem vinculação geográfica. É universal, viva e atrativamente decadente. A Galeria Presidente só abriga “empregados” em busca de uma melhor sobrevivência, que saíram de seus países a fim de condições melhores e “paz”.

Nosso protagonista precisa se adaptar ao Brasil, um lugar completamente inóspito, principalmente pela língua que não fala. Há em “Cidade Pássaro” um controle absoluto da direção em seus planos poéticos-estéticos-caseiros, especialmente pela fotografia granulada que simula a película e por sua vez uma maior imersão na naturalidade que já se apresenta editada e ficcional. São infinitas camadas para uma análise antropológica completa, que deixaria qualquer psicanalista sedento de excitação. “Deixa a saudade para trás”, diz-se. De forma sutil, o filme infere ao seriado da Apple TV+, “The Little América” e o episódio “Caubói”, pela semelhança de se ter que desligar o antes, acostumar-se com o agora e se conectar no futuro com a nova moradia permanente. Sim, assistir este longa-metragem aqui em Berlim parece que um elemento extra é inserido: o de que por mais que andemos, sempre seremos estrangeiros de nós mesmos, já escrevia Albert Camus. E sem a tolerância para entender as desventuras iniciantes de novos eus antigos.

É incrível que só conseguimos olhar realmente para nosso povo quando saímos do seio patriótico. Quando viajamos, somos diferentes, como se estivéssemos em limbo transicional de portais de transporte. Mas não é só isso. A película também ecoa a reencarnação da ancestralidade, que marca pela invisível toda uma vida e a impossibilidade da libertação. Para cortar o cordão “umbilical” apenas pela morte do que já se foi um dia e o renascimento zerado de um novo ser, que engatinhará e com o passar do tempo, um “nativo acreditado”.

Matias Mariani incorpora uma investigação pessoal ao irmão, que desapareceu misteriosamente, com o subconsciente de “pensadores alemães”, como Schopenhauer, um pessimista crônico e convicto, e com um que de “bastidores”, bem à moda de “Pendular”, de Júlia Murat, sua esposa, e indicando o tom com o livro “What is called Thinking?, de Martin Heidegger. Entre física e matemática, “Cidade Pássaro” estrutura sua conexão pela música, com seus sons e ruídos característicos. São melodias que despertam lembranças e novas integrações, e que encontram até um pedido de desculpa. Nós aprendemos que o flerte amoroso independente da língua. Que fantasmas se divertem na piscina do prédio, com um que de “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho, e de percepção inegável com a forma do cineasta Pedro Costa, que serve de inspiração ao curta-metragem “O Estacionamento”, de William Biagioli.

Sonhos, fragmentos, “cabelos humanos”, reflexos, a quebra da quarta-parede (a personagem olha para a câmera), tudo nos apresenta a dois mundos. De transe e integração com a própria cidade. Mas peças são tentadas neste quebra-cabeças. A questão retórica principal é a de “Como nos comunicamos?”. E amar é apenas “gostar da companhia da pessoa”. E músicas, muitas músicas. Que contrastam o clássico com Alcione, mudando a ordem e trocando papéis-funções. Contudo, “Cidade Pássaro” possui peças demais e quando conseguimos montar, a emoção torna-se encenada, ainda que a catarse seja grande, que mais uma guitarra tenha sido destruída no mundo e que karaokês podem afastar ou permanecer o “amor” de sua vida.

Trailer

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