Chão de Fábrica

Tradição coletiva

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Chão de Fábrica”, de Nina Kopko, é uma obra que desloca o centro comumente representado por figuras masculinas para um grupo de mulheres que debatem sobre a vida e a necessidade da greve em busca de melhores condições de trabalho. A obra possui alguns campos de discussão em jogo, desde essa conversa que acontece no banheiro da fábrica, durante o intervalo do almoço, até mesmo uma narração em off que comenta o futuro político e social de cada uma das personagens. Funciona bem como retrato de uma época onde parte dos assuntos neste campo de luta política envolviam figuras emblemáticas dos operários e dos sindicatos. Acaba romantizando o período quando essa narrativa é construída em uma estética que procura retratar o período e os discursos fazem entender que tais figuras são parte de um movimento verdadeiramente revolucionário.

Está certo que em seu tempo representado, poderiam ser compreendidas de tal maneira, mas quando brinca com uma certa tensão sexual, demonstra o interesse de cessar esse debate em seu tom positivo. Essa falta de crítica ao que já vimos no mundo contemporâneo acaba fragilizando um pouco “Chão de Fábrica”, que possui forças notáveis, em especial quando propõe um fim para essas personagens que acompanhamos tão de perto. E é nessa relação da prosa que o curta consegue seus melhores momentos, não porque glorifica, mas porque humaniza e traz a luz o lado cotidiano dessa luta que não é fotografada, não está presente na icônica foto da greve e é pouco representada no audiovisual brasileiro, essas mulheres que estão no chão de fábrica discutindo formas diferentes de sobrevivência. Seja na tradição do cinema brasileiro em alçar uma teatralização do frontal ou nesse recorte de espaços entre espaços, o trabalho de Nina Kopko é tão consciente quanto seus personagens.

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