Cena do Crime

Crime sob outra ótica

Por Ciro Araujo

Durante a Mostra CineBH 2021

Entender que a violência é um dos objetos mais observados no cinema, desde Edwin Porter até Scorsese, é indispensável. O ato de assistir, de ser ativamente um voyeur do crime é, quiçá, uma overdose da sétima arte. Eis que “Cena do Crime” de Pedro Tavares aparece para caminhar nesse espectro. Apesar de seu tema principal, porém, o filme é também uma regurgitação catártica sobre a noite.

O conduzir de “Cena do Crime” formatado linearmente permite ao espectador enxergar um crime ocorrido em pleno Natal de forma simples, porém observadora. É aí que o diretor decide entender que no microcosmo formado — um cinema de condomínio e por consequência burguês — existe um terror no ato. Ao em vez de olhar para o indivíduo, visto que a câmera aqui se permite dar seu próprio tempo para os atos, a análise parte mais a anatomia da violação e de sua própria solução. Para isto, pouco mais de uma hora de filme se faz então necessária.

Por mencionar a câmera, não é difícil de notar as soluções dadas por Pedro Tavares. Em múltiplas ocasiões a máquina é a própria máquina, seja ela de segurança ou possuindo uma autoconsciência que reparte para a estética criminalística. Em certos momentos o próprio cenário é tecnológico, um sci-fi do qual o cineasta já demonstrou gostar, aparatos como portões elétricos que ganham vida em frente à própria filmadora. O ruído pertencente à imagem cai como uma luva, um complemento da noite como solidão, que não se dá apenas pelo escuro, mas pelas luzes fantasmagóricas soltas por ali. A propósito, é pelo uso totalmente inventivo do realizador que as transições em seu primeiro ato adicionam um místico tão interessante que trazem de volta os thrillers lynchianos como em; em um determinado momento, três cenas simultaneamente em dissolução soam naturais entrarem em contato entre si, um apetrecho de experimentar, ainda mais pela própria caracterização de filme realizado em tempos pandêmicos dentro de um determinado espaço.

A obsessão vista na iluminação é tão encantadora e hipnotizante que ao entrar na investigação de fato retratada na obra se assimila a um tombo. O esperar o desenrolar lento é catatônico, como uma chama que se aproxima e não se pode sentir essa queimação. De forma alguma é fácil trabalhar entorno de quem propõem este modo: requer controle. Por exemplo, o misticismo citado só voltaria em determinado momento num filme que já seria outro, agora pé no chão, investigativo, um ato intermediário, já pós-introdutória. Agora, transitar entre esses dois planos (aéreos e terrestres) torna-se um trabalho totalmente desafiador para o diretor. “Imersão” pode ser uma palavra procurada para esse desafio, ou talvez um “choque térmico” seja menos genérico. É nessa armadilha narrativa em que o filme se encontra, ou melhor, acaba caindo.

E de forma alguma “Cena do Crime” esquece do próprio afastamento conscientemente realizado de voyeur para assistir logo após a propriamente examinação da cena do crime. Em um país politicamente aterrorizado pelo fetichismo da violência e o avanço de programas sensacionalistas (e policiais), manter uma visão de esticamento do tempo vai totalmente contra noções clássicas do que é filmado no país para a televisão. “Se tem Maria da Penha, não tô nem aí”, diz o jornal num trabalho instigante de voice over, obviamente como correlação ao tema de serial killer dado durante o filme, um aviso ao homicídio explorada. Em determinado momento acontece a dúvida de como o caso, apesar da frieza trabalhada durante o aspecto da obra, midiaticamente seria retratado, com bravatas, gritos e chavões através do silêncio retratado na película. “Peraí que o filha da puta tá gritando aqui do meu lado”, diz um dos policiais.

Num panorama, esse cinema que Tavares monta é o de uma simplicidade enjaulada. Ali dentro possui misticismo e um interesse muito particular pela luz, porém quando é sua hora de encontrar mais, foge de sua imersão proposta. O filme possui essa faixa quase em branco, mas não adoece totalmente, pois existem seus relampejos a respeito do próprio gênero criminal e manias charmosas o suficiente para permitir um esquisito deslumbre da ação para o método para as consequências e solução. É um trabalho separado de uma noite de final de ano para um assassino e outro para um grupo de policiais; tudo sob a ótica afastada para um longa interessado nos acontecimentos gerais, em produzir um exercício.

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