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Casa Vazia

Retrato dos tempos em dissolução

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

Casa Vazia

“Casa Vazia” é um filme peculiar que se divide entre o drama e o suspense em medidas bastante específicas. O longa de Giovani Borba é uma obra que se constrói a partir de um acontecimento dramático que isola o protagonista do universo ao seu redor, provocando uma série de conflitos que giram em torno do orgulho e dignidade, sobrevivência e honra, trabalho e marginalidade. As questões variam entre si não como pontos antagônicos em si, mas como uma manifestação dessas chagas de um subdesenvolvimento que cria contrastes fatais. Um exemplo disso é como a busca pela família leva o personagem central a reencontrar velhos fantasmas do passado, as pessoas, os velhos hábitos, vícios e uma série de demônios que enquadram a legalidade com os riscos da solidão.

A fotografia premiada no Festival do Rio de 2021, assinada por Ivo Lopes Araújo, é fundamental para a construção de uma encenação que traduz o pesar de suas figuras na medida em que os sentimentos dão vazão ao que a noite pode reservar. Quanto mais avançamos na projeção, é possível notar que as sombras tomam conta da maior parte do quadro. Mesmo quando é dia, o rigor dos espaços é contemplado pelos recortes espaciais e de classe que seccionam essas relações, explicitamente na base familiar, onde um reencontro possibilita uma nova vida para Raúl (Hugo Nogueira) mas desencadeia um retorno ao homem que vimos no início da projeção. “Casa Vazia” é capaz de transitar entre seus pólos com bastante naturalidade e precisão, catapultando seu protagonista para cantos sombrios de um local que ele tanto possui memórias mas não se reconhece. Nesses vazios, as figuras errantes vagam com propósitos que conflitam com sua integridade, moral, física e psicológica. Homens dependentes de matéria que vacilam na primeira dúvida de suas capacidades.

A montagem tem a difícil tarefa de organizar essa busca a partir dos recortes que demonstram as fragilidades do personagem diante de sua própria situação. Mesmo a média dos planos sendo relativamente longa, conseguir criar um fluxo dessas imagens sem soar excessivamente fragmentado diante do desenvolvimento dramático, é um desafio que Marina Meliande e Bruno Carboni atravessam. Agora, o ritmo de “Casa Vazia” é afetado diretamente por sua estrutura cíclica, transformando a experiência em uma lenta projeção de sua própria narrativa anterior, o espectador vê Raúl repetir cenários, personagens, diálogos, conflitos e dúvidas. Porém, faz parte de uma proposta que compreende as necessidades desse universo enquanto algo que vai fragilizando o protagonista até que o mesmo venha a ceder. Esse processo é o que transforma o filme nessa multiplicidade de possibilidades na articulação de sua encenação. Por vezes, o projeto dialoga quase com o naturalismo, outras com o realismo e chega a flertar com um suspense mais direto. O interessante é que a forma como a imagem confronta a morte é sempre carregada de uma brutalidade indiferente, quase como que provocando o inanimado. E essa é a maior força do longa, conseguir transmitir sua melancolia com a suposta crueldade de seu universo.

Na atual edição do Festival do Rio, “Casa Vazia” consegue um belo prêmio por sua fotografia e merece ser lembrado como um dos longas mais peculiares da Première Brasil. Os não-atores são utilizados com maestria nesse cenário tão amplo quanto claustrofóbico da fronteira com o Uruguai, onde a vida parece se esvair pelo cotidiano violento que rodeia seus personagens. Na procura de sentido para suas trajetórias, os conflitos internos passam a tomar conta dessas imagens que ampliam a percepção de uma paisagem política, tanto quanto psicologicamente afetada pelos fantasmas do passado de cada um.

Para cada ciclo uma nova falência moral surge para abalar as estruturas, mas o retorno nunca é exatamente igual ao anterior.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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