Casa de Antiguidades

Caos bacurauense em tradução antiquada

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra de São Paulo 2020

Selecionado para a mostra Semana da Crítica do Festival de Cannes 2020 (edição cancelada por causa da pandemia mundial do Coronavírus), “Casa de Antiguidades” (2020), que estreia, despertando interesse, na 44a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é uma experiência de confronto antiquado, ao reencontro com a ancestralidade existencial, que se encontra adulterada por adaptações sociais (e principalmente por inferências de outras culturas, como a alemã).

O filme desenvolve-se pela estética da forma. Da fotografia. A narrativa, metafísica, conjuga, no realismo do olhar, fábula, etéreo e absurdo. A primeira cena remete a uma ficção científica (futurismo coloquial-cotidiano de orgânica presença personificada), de percepção-sonho, com a mise-en-scène da fumaça e roupas protetoras (lembram cientistas em estudo da cura para algum vírus – pois é, mera coincidência metafórica com o momento atual que passamos). O furo na roupa gera o receio pela possibilidade de perigo de se contaminar, sugerindo o início de uma crítica político-social (pela atmosfera de uma estranheza editada e teatralmente ensaiada, à moda talvez do realizador americano Wes Anderson), entre empregadores (superiores, que intensificam a vulnerabilidade de seus empregados falando em outra língua que não é o português) e “escravos” do sistema trabalhista.

Essa ambiência intensifica sua epifania pela utilização do zoom, que vai aproximando quase invisível e quase imperceptível para estreitar a distância da observação espectadora. Ora pela câmera estática no personagem principal Cristovam (interpretado pelo ator Antônio Pitanga) com o intuito de captar a interpretação direta-sequência e suas reações. “Casa de Antiguidades” é também uma crítica a própria sociedade, egoísta, hostil, acelerada, mimada, agressiva, imediatista, impulsiva, preconceituosa, racista e desumana e sem limites do certo inquestionável.

Sim. A essência do discurso apresenta-se claramente e sem ruídos. A relação de classes e a aceitação das condições do emprego para sobreviver. Ele, o protagonista, ser o único negro da comunidade. Na festa-comemoração da empresa, a cerimônia é em alemão (não traduzido para gerar também no público a sensação deles, brasileiros, de submissão por desconhecimento (e entendimento). Nós percebemos também que sua casa se situa longe no meio do nada, destruída todo dia para intimidá-lo a sair daí (com mensagens parecidas àquelas dos abandonados banheiros submundos – lugares de fuga a jovens à procura de sexo, drogas e bebidas); que é “povoado” por crianças com armas na mão (que atiram por diversão, remetendo a “A Fita Branca”, de Michael Haneke; e/ou “A Casa Que Jack Construiu”, de Lars von Trier – e uma possível alimentação do nazismo); por um medo iminente à la “Corra!”, de Jordan Peele; pela pixação da casa. Há uma violência e uma intolerância estruturais. Sim. A mensagem atinge seu objetivo. Inclusive os lampejos-evocações de rituais de umbanda. E até mesmo nosso pedido para a revolta. Nosso protagonista aceita tudo. Abaixa a cabeça com “tiro de misericórdia” e se defende como pode no berrante (último resquício de manter suas raízes).

Contudo, seu realizador paulistano João Paulo Miranda Maria, estreante na direção de um longa-metragem, preteriu totalmente a forma ao conceito. A estética ao apuro técnico das interpretações, imprimindo assim um duelo entre a poesia da imagem e o amadorismo improvisado da criação. Tenta-se cumprir uma lista de toda problematização social em um único filme, que procura abrigo e semelhança em “Bacurau”, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A constatação vem mais explícita a partir da cena de uma sodomia e se torna um pretensioso exercício de linguagem. Há a viagem-delírio-místico-sobrenatural de onças (simbolismos do mal do homem). Há a atitude do homem-boi. Há um leilão de touros (de “caracterização racial”; “a genética hereditária do Touro”, “um touro de nascimento nobre” – Superioridade branca?). “Casa de Antiguidades”, talvez, por até aqui ter sido silencioso e contemplativo, quando os diálogos aparecem, desencadeiam a impressão de um forçado anti-naturalismo e de um frágil roteiro, especialmente pela facilidade em trazer a luta desse indivíduo que só quer ter paz para existir.

Sim, entendemos que tudo abre um portal tridimensional à origem-memória que guarda essa antiguidade, porém, como foi dito, a forma distancia o espectador, que sente awkard (constrangimento) do tom overreacted (exagerado) das interpretações caricatas e sofríveis (ainda no ensaio). Nós somos atravessados por uma repetição de olhares forçados e frases de efeito. Mas nas ações, o filme funciona, como a cena de sexo. Nosso protagonista é um “preto indesejável”, que recebe deboche, descaso e chacotas. E no final a revolta chega, ingênua e à moda invertida de “Bacurau”. Concluindo, um filme aberto demais, que se perde, de forma desengonçada, no próprio caminho, ainda que importe a catarse de Glauber Rocha, antiquado, em época errada e de utopia ultrapassada. O filme venceu o prêmio Roger Ebert Awards do Festival de Chicago 2020, destinado a revelar novos talentos e vozes no Cinema Mundial.

Trailer

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