Caros Camaradas!

Em que devo acreditar, senão no comunismo?

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2020

Com essa dúvida, Lyuda, a personagem principal do notável drama político “Caros Camaradas!”, de Andrei Konchalovsky, se interroga em meio ao pânico deflagrado pela brutal repressão aos trabalhadores, em 2 de junho de 1962, na cidade de Novocherkassk, na bacia do rio Don, próximo ao Mar Negro. Como é possível uma greve com sangue e mortes em um país comunista? E, para arrematar, ser apagada da história, com as testemunhas obrigadas a assinar acordo de confidencialidade prometendo silêncio sob pena de morte em caso de quebra do acordo – uma operação cavalar, que funcionou até que rumores e protestos aflorassem, culminando com a menção feita por Solzhenitsyn no seu “Arquipélago Gulag”, em 1973. Uma presença resiliente, uma substância memorial que o filme de Konchalovsky atualiza e recupera, trazendo à tona, com extrema contundência, a violência soterrada pela história oficial, em última análise uma contradição do sistema – greve e repressão – que o próprio sistema não tinha como absorver.

Um esquecimento que parece perdurar até hoje, insinuante. O próprio diretor afirma ter se lembrado do episódio “apenas quando Yulia (atriz Yulia Vysotskaya, sua esposa) interpretou Antígona no palco. Julia tem um talento maravilhoso para tragédia, e escolhi um papel adequado para ela”. Konchalovsky é um sujeito habilidoso: deliberadamente procurou um estilo o mais próximo possível dos filmes soviéticos, preto e branco e proporção 1:33 do quadro cinematográfico, segundo ele um “formato especial porque, ao contrário do cinema moderno, permite ver o céu”. Nas sequências dos assassinatos massivos, filmou com planos fixos, sem câmera na mão ou sofreguidão, como ocorre no cinema moderno, que não consegue mais surpreender espectador nenhum. O building up da tensão de “Caros Camaradas!” constrói-se do ponto de vista das autoridades soviéticas atônitas diante da multidão indomável e explode na atuação discreta de snipers da KGB, mostrando sub-repticiamente pequenos detalhes das vítimas e evitando ao máximo visões gerais explicativas e pretensamente catastróficas. Uma brilhante solução formal que carrega em si uma carga histórica – lembrar, desenterrar uma tragédia abafada como o massacre de Novocherkassk começa pelo tratamento estético, que inclui enquadramentos, locações, seleção de figurantes e casting.

Mas lembrar é um exercício penoso, o passado perdeu-se para sempre: o presente – protestos recentes em Moscou contra a prisão do opositor de Putin, Navalny; manifestações em massa contra o governo central  na cidade de Khabarovsk, em julho do ano passado, entre outros – ressoa na audiência. Em 1962, devido ao aumento do preço do leite e à diminuição simultânea dos salários, os trabalhadores da Fábrica de Locomotivas Elétricas Novocherkassk entraram em greve e foram para a praça central com faixas vermelhas e retratos de Lenin. A liderança local do partido, junto com o secretário do comitê regional, corre para a fábrica: lá são bloqueados por trabalhadores em greve e saem pela escada lateral. A KGB intervém. Veículos blindados e tanques chegam na cidade. Depois de algumas tentativas malsucedidas de acalmar os operários enfurecidos, a KGB (sobretudo) e soldados abrem fogo – 26 pessoas foram mortas, mais sete foram fuziladas, cerca de cem ficaram feridas. Os acontecimentos são mostrados pelos olhos de uma trabalhadora responsável do Partido, chefe da comissão de produção da cidade, Lyudmila Syomina. Mãe solteira, enfermeira na linha de frente durante a guerra, sincera em sua fé nos ideais soviéticos, ela é uma stalinista convicta: na reunião de emergência com generais e altas autoridades do Politburo – Frol Kozlov, considerado à época provável sucessor de Khrushchov, e Anastas Mikoyan – propõe abruptamente punição exemplar aos rebeldes. Desgraçadamente, sua filha participou dos protestos e não voltou para casa.

O horror de “Caros Camaradas!” é que tanto a ameaça de morte quanto a esperança de salvação no universo soviético podem vir exclusivamente do oficial da KGB, Viktor, que ajuda Lyuda na busca desesperada pela filha. A imposição do esquecimento coletivo começa com o palco erguido às pressas na própria praça onde pessoas desarmadas foram mortas um dia antes. A ideia foi promover um baile a céu aberto para a população, evento popular naqueles tempos quando a televisão ainda engatinhava. Lyuda em vários momentos cantarola canções patrióticas do universo soviético, no carro à procura da filha, acompanhada por Viktor. “Caros Camaradas!” começa com o hino da União Soviética ecoando numa manhã ensolarada em Novocherkassk, hino esse cujas palavras foram escritas três vezes por Serguei Mikhalkov, pai de Konchalovsky: em 1943, jovem poeta, comissionado por Stalin; em 1977, sem a menção de Stalin na letra (na prática o nome do líder já tinha sido suprimido depois do 20º Congresso do Partido Comunista, em 1956, com as revelações macabras feitas por Khrushchov); e finalmente no ano 2000, quando Putin recuperou o hino (que tinha sido eliminado por Yeltsin) e pediu a Serguei que atualizasse a letra. O diretor e seu irmão, Nikita Mikhalkov, mantêm boas relações com o Kremlin. Em 2003, Putin visitou o escritor, que completava 90 anos, e condecorou-o com a Ordem “Pelo Mérito da Pátria” (em 1973, ele já havia recebido o título de “Herói do Trabalho Socialista”, entre outras inúmeras honrarias: os russos prezam rituais de medalhas e condecorações).

Konchalovsky gosta de citar o filósofo inglês John Gray, para quem não existe progresso nas relações humanas, pois a ética não se acumula na experiência coletiva: ao contrário do saber técnico e científico, que está em constante progresso pelo acúmulo de novos conhecimentos, a ética pode ser destruída em uma geração. Os ciclos históricos parecem confirmar esse paradoxo. Sua exitosa carreira cinematográfica começou como corroteirista de Tarkovsky em “A Infância de Ivan” e “Andrei Rublev”, nos anos 60: seu “Paraíso”, de 2016, ganhou vários prêmios internacionais, inclusive o Leão de Ouro em Veneza. Em 2002, já tinha levado o Leão com “Casa de Loucos”, um dos melhores filmes realizados sobre a conturbada e absurda guerra da Chechênia.

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