Caminhos da Superação

Instituição e fé

Por Vitor Velloso

“Caminhos da Superação” é bastante protocolar em toda sua abordagem. É uma espécie de documentário promocional sobre a superação e o cristianismo como regulação de um monumento desafiador. O filme de Noel Smyth, Fergus Grady possui esse espírito bem denso de uma base dogmática, sempre entre o sofrimento e o monumento dos obstáculos.

É uma espécie de panfleto, com algumas tentativas de criar um vídeo institucional de gatilho rápido, não à toa, as tomadas com drones e toda a exploração da paisagem que norteia as locações do documentário, vão se acumulando com o passar dos minutos. Neste aspecto, fica claro que o longa não possui grandes pretensões com a obra, pelo contrário, parece absolutamente confortável em prestar o serviço burocrático de apresentação de trajeto com todos os elementos necessário para uma venda de pacote de viagens. E novamente, o Brasil se vê de portas abertas à projetos que não parecem conseguir muito espaço nas janelas internacionais. Desespero ou distribuição calculada, a verdade é que além da questão da superação como um todo é difícil se apegar em “Caminhos da Superação”

Isso se dá por diversos motivos. Primeiro que apesar de personagens relativamente carismáticos, as situações que observamos são quase sempre as mesmas, com pouca ou quase nenhuma mudança, todas elas acompanhadas de uma música que busca elevar a alma e acrescentar uma força em todo aquele esforço. Em segundo, o filme não parece possuir um foco definido entre os espaços de sua montagem, são diversos personagens, com diversas histórias e toda uma dramatização acontece em torno dessas narrativas, mas não existe uma estrutura que torne tudo isso funcional e a perda de interesse por tudo aquilo vira a única tônica possível, pois a cada minuto que passa estamos com a sensação de não avançarmos nessa história. 

Assim, tal como seus personagens, o espectador se sente angustiado por um documentário de menos de 90 minutos não ter fim. É um problema múltiplo, parece ser um apego excessivo a determinados trechos e passagens. Ou mesmo uma falta de material para compor um longa-metragem bem trabalhado, alguém falhou. O grau de exposição é tão contundente que esse reflexo cristão que é gerado, parece surgir de um lugar de absoluta admiração idílica, quiçá cândida, com o local, mas não reconhecendo ali uma cultura, uma particularidade. É uma espécie de sonho burguês do espaço com a formalização de determinadas questões cristãs, um verdadeiro barato conservador. E toda essa inércia da produção diante de uma riquíssima apresentação que é feita por parte de seus personagens, em chaves absolutamente distintas, vai se perdendo por esse fetiche reducionista e expositivo. 

Tudo é frágil em “Caminhos da Superação”, pois nem o filme consegue estabelecer uma particularidade limítrofe para trabalhar, tenta agarrar tudo aquilo que pode, mas se desprende como quem assume que essa jornada é mais importante que os próprios personagens. Não à toa essa base cristã se vê tão forte, aliás é a superação o grande tema do filme, está no título. O lugar, um trocadilho, e a ideia cristã. Ou seja, todas aquelas pessoas, representam essa ideia, compartilham de um imaginário do filme acerca disso, compõem o cenário, mas não são objetos centralizadores, exceto por alguma fala de impacto, que o documentário fará questão de ressaltar. Assim, o sentimento de filme institucional, promocional, fica cada vez mais forte. O número de desistências aqui não será baixo, mas sem dúvida há público aberto para isso. 

Como palpite, arrisco dizer que o filme estará concentrado majoritariamente nos pólos economicamente avantajados das cidades, algumas, e o assunto ao término de projeção será sempre os comentários lúdicos de quem sente parte dessa superação, ou mesmo um anseio, um ímpeto de querer fazer o mesmo trajeto. Se o segundo acontecer, o projeto promocional funcionou perfeitamente e a elite poderá se satisfazer com toda essa riqueza de fetiches por um trajeto e um dogma. 

“Caminhos da Superação” está longe de ser uma ofensa às janelas de exibição, e consumo, mas demonstra a fragilidade de mercado que o Brasil está vivendo. 

Lembrando que com as reaberturas das salas de cinemas, cabines de imprensa, presenciais, estão acontecendo. O Vertentes do Cinema não corresponde com irresponsabilidade. O filme em questão foi visto online.


Disponível nas plataformas convencionais Itunes, Net Now, Vivo Play, Looke, Google Play e Youtube Filmes.

Trailer

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