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Broker – Uma Nova Chance

Novos assuntos e conceitos de família

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2022

Broker – Uma Nova Chance

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2022, o longa-metragem “Broker – Uma Nova Chance” corrobora a característica principal do realizador japonês Hirokazu Kore-eda: a de ressignificar o conceito de família pela humanização do afeto, cuja narrativa imprime a naturalidade sútil e não convencional do cotidiano de pessoas sobreviventes. Kore-eda, suaviza a complexidade do tema do abandono de crianças (tráfico humano “venda de bebês órfãos) ao criar um sensível, contemporâneo e coloquial conto-de-fadas, intercalando emoções, necessidades, causas e efeitos, e, às vezes até se utilizando da música acompanhada para talvez proteger o próprio espectador das hostilidades da existência de suas personagens (que se defendem com o mais conhecido “jeitinho brasileiro” para comer, por exemplo, e continuarem vivos e “parasitas”). Este é um filme observacional. De construir um tempo imersivo e sinestésico. 

“Broker – Uma Nova Chance” pode ser traduzido como uma crônica social pela perspectiva micro, de dentro, dos protagonistas responsáveis, trazendo inclusive a metáfora das caixas. Esses envolvidos, por viver a realidade em tempo real, não mais enxergam a fantasia da vida, esta mascarada pelo culto à imagem e à educação coletiva. Ainda que sejamos afundados na verdade nua e crua das ruas (contra a sordidez dos “filhos do capitalismo” e “desconto de bebês”) e gângsters, nós encontramos o mais genuíno e intrínseco dos comportamentos humanos, entre particularidades da personalidade de cada um: pragmatismo, simpatia, falar abertamente de forma direta. Sim, não há como não referenciar ao sul-coreano “Parasita”, de Bong Joon Ho, não só por causa de seu elenco importado, Song Kang-ho, por exemplo; de ter sido produzido pelo mesmo estúdio; tampouco de contar a história de dois homens coreanos; e/ou por ser filmado nas cidades coreanas de Pohang, Gangwon-do, Busan, Seul e Incheon, não, mas principalmente por sua mise-én-scene que gera o tom sensorial. Sim, aqui “o foco é na estrada e não no morango”. 

Cinco anos depois de ganhar a Palma de Ouro por “Assunto de Família, Kore-eda parece ter mais pressa nesta obra, permitindo quase uma improvisação dos planos, mais soltos, mais populares e mais didáticos. Quase, porque a ambiência coloquial está pulsante e todo o movimento de vida acontecendo. “Broker – Uma Nova Chance” é também um estudo antropológico pelo viés da psicanálise, complementada pela fotografia saturada que reflete a captação da invisibilidade do dia-a-dia nosso de cada dia. Durante o filme, nós somos apresentados em sessões de terapia, em que rejeição, vulnerabilidade, solidão, carência, orgulho da última faísca de dignidade restante, fazendo assim que os espectadores questionem os próprios olhares moralistas e maniqueístas. De um lado, a pureza do não entender o motivo de uma mãe jogar o bebê fora. Do outro, a oportunidade. Dez milhões, menino. Oito milhões, menina. Cada vez, “Broker – Uma Nova Chance” desvirtua tradicionais preconceitos enraizados quando remodela o conceito de família. E quando simplifica demais a complexidade do tema “sem burocracia”. Qual o problema? Se uma mãe não quer o bebê, outra quer. Por que essa negociação é tão discutida? Se é tudo mesmo sobre pais e filhos? Por que a sociedade se mete tanto na vida alheia?

Diferente do ritmo e tempo construído dos anteriores,  Kore-eda, como já disse, “Broker – Uma Nova Chance” soa mais urgente. A narrativa corre-se mais, potencializando demais o lado sentimental. Entre sonhos, adoção, mar, esperanças, projeção, o filme fica mais romântico, mais ingênuo e mais óbvio. É, talvez o japonês estivesse fora de sua zona de conforto, lidando com um problema mais real, contudo, ainda assim, mesmo com toda essa sublimação emocional, “Broker – Uma Nova Chance” consegue manter a sensível estrutura familiar criada e reiterar a sensação que não existe “casais ideais”. Aqui, a mensagem dessa fábula é a de que família não se procura e sim acontece pelo apego.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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