Boy Erased: Uma Verdade Anulada

Em nome de Deus

Por Vitor Velloso

A partir de uma lógica mercadológica da indústria norte-americana, o cinema poda suas intenções políticas e sociais dentro de um limite “aceitável” para os detentores do capital, em grande maioria em favor de uma ideologia que é própria dessa elite.

“Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, cujo título com tradução parcial é uma afronta (utilizado aqui para engatilhar o público que leu o livro e vice-versa), é dirigido pelo australiano Joel Edgerton, que em segunda tentativa no âmbito do longa-metragem, alcança outras camadas depois de “O presente” (2015), mas mantém parte de sua identidade.

O diretor parece estar caminhando para uma estrutura de carreira que busca determinadas nuances em seus personagens centrais, a partir de questões individuais que reverberam em meio coletivo. No primeiro filme trabalhava isso dentro de uma proposta de gênero, o suspense, onde acabava caindo em algumas armadilhas do clichê e transformava todo o processo em uma repetição de dogmas cinematográficos.

Em seu novo longa, “Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, Joel parece estar interessado mais no impacto de seu discurso que necessariamente em seu protagonista. Essa decisão acaba afetando diretamente o andamento dramático que o filme propõe, pois cria um esforço constante para que o espectador sinta aquela dor, de ser velado, oprimido e trancafiado em uma bolha de “valores e dogmas” religiosos, que acaba encarnando na figura do pai, interpretado por Russell Crowe

E utiliza como mecanismo para isso a história de Garrard Conley, que é retratada aqui a partir desse olhar distante e inócuo acerca dos problemas vividos por ele, pois se preocupa mais em arrancar dali alguma ação dramática que se debruçar sobre seu personagem e o desenvolver de maneira construtiva com seus coadjuvantes, que por muitas vezes trazem discussões importantíssimas para a narrativa, a relação com os pais, a tentativa enlouquecedora de Jon (Xavier Dolan) em se reprimir e o suicídio de uma das vítimas dessa patologia social que é a “reorientação sexual”. O impacto deste tipo de tortura é visto a partir de um espectro social e psicológico, causando danos irreversíveis à estrutura emocional de quem sofre. De forma institucionalizada se pratica crimes bárbaros de abuso psicológico, tortura física, exposição etc, seja em nome de Deus ou do Estado. Seja transitando entre o moralismo presente na obra ou a realidade estatal que prega pela surra nos filhos gays.

O ato de “ser homem” é a intoxicação mental que é generalizada aqui, que através dos mais assombrosos métodos, buscam transformar qualquer silhueta em algo “viril”, “másculo”, “coisa de homem”. Para além do culto fálico, quase paradoxal da coisa, existe essa tentativa de manter o status da bipolaridade da sociedade, não apenas na orientação sexual de cada um, como no gênero. E na cor.

Edgerton é seguro da narrativa que conta, não cria grandes demandas dramáticas, buscando soluções pragmáticas para a saída das mesmas, costura as cenas e as resoluções de impacto através de diálogos expositivos e acaba estereotipando grande parte da situação que filma. Mas consegue conceber algo minimamente interessante, sendo capaz de segurar a atenção do público, criar momentos de tensão que podem vir a incomodar e possui destaque em um momento ou outro, como por exemplo, o pós-linchamento, quando Jon, segura o braço de Jared (Lucas Hedges). E aqui vale a menção para a interpretação de Hedges no longa, onde dá luz à um personagem que possui facetas diversas, graças a seus esforços não necessariamente daquilo que é construído em texto.

E esse acaba sendo um dos problemas de “Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, que parece estar sempre preocupado com essa reação imediata do espectador e com algum grau de retorno na bilheteria, que o leva a transformar o projeto em algo que se suaviza com suas resoluções dramáticas rápidas e evita chegar ao limite do que os detentores do capital norte-americano julgam “aceitável”, gerando lacunas na construção que se propõe, pois acaba saltando pontos necessários para uma discussão geral.

Mas possui o mérito de dar luz a essa história e de promover parte da luta de determinadas celebridades, como Xavier Dolan e Troye Sivan, o que pode aproximar o filme de um certo público. Está longe de ser memorável, mas é um projeto que, sem dúvida, possui um lugar nessa tentativa de denunciar o preconceito e a truculência.

Trailer

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