Bonitinha, mas Ordinária

Fla x Flu de classes

Por Vitor Velloso

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Pretensiosismo particular ou “sem nenhuma coincidência, como toda coincidência”, é possível discutir o Fla x Flu de mortes que estamos vivendo no Brasil contemporâneo, junto à exposição de funcionários no balaio virulento promovido pela FERJ que promove a final do Campeonato Carioca, com a necessidade de arriscar a vida de trabalhadores para o bel prazer dos detentores do capital (ainda se alongando em uma briga midiática).Somando isso à Nelson Rodrigues e o retrato fílmico de uma sociedade burguesa que se diverte, sadicamente, com a destruição moral e física da classe trabalhadora, o roteiro de “Bonitinha, mas ordinária” se projeta na realidade de maneira pouco feliz. 

O clássico mais fonético do Brasil pode ser transposto para a inevitável comparação do filme de Braz Chediak, de 81, e do contemporâneo, Moacyr Góes, de 2013. Apesar de irremediável algumas insinuações de debate cinematográfico próprio das duas películas, devemos enxergar o ponto de interseção, o texto de Nelson Rodrigues. Assim, a comparação não será feita. 

Se a obra é reflexo de seu tempo, frase duvidosa em diversos aspectos (com fundo de verdade), o texto do tricolor, “Bonitinha, mas ordinária”, deve ser trabalhado da mesma maneira, ainda que boa parte de sua leitura acerca das problemáticas sociais da burguesia permaneçam atualizadas.

Essa moral perene dos detentores do capital financeiro é sempre reduzida às cinzas quando o escorpião vêm à luz. Na desculpa da boêmia, do álcool e das drogas, a classe dominante utiliza todos os recursos possíveis para que haja a deturpação de tudo aquilo que se defende em nome do dogma social, sacramentado por eles, sempre recorrendo à máxima católica de receber o perdão (não pedir). Não à toa, Dr. Werneck (Gracindo Júnior na nova nova versão) chega em casa após uma sessão de estupro e perversão, pergunta à sua esposa “Eu sou um homem bom não é?” (adaptado por mim), que lhe responde “Você é bom Heitor”. A esposa permanece deitada na cama, com sua máscara de dormir, sem nunca lhe olhar nos olhos. 

Está claro que “mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa” é um julgamento que apenas as classes abastadas se dão o prazer e possibilidade de auto perdão. Para além de se tornar símbolo da hipocrisia de uma benevolência redentora, onde não há resposta imediata, o mesmo é sintetizado em uma espécie de batismo mórbido carregado de “sincericídio”, onde Cadelão/Peixoto (Leon Góes) entupido de álcool abre a súmula da redenção para Cecília (Letícia Colin), assassinando-a em uma piscina chique da Zona Sul carioca. 

Os retratos são bastante claros e tornam-se ainda mais evidentes a partir daquilo que Djonga, sociólogo da rua, traduz em Bené

“Essas Paty que sobe o morro só pra dar pros cara 

Conhecida por vagalume, só brilha na bunda 

Trazem o veneno mesmo que é você quem dá a picada 

Crime quebra igual creme crack e não sobra nenhuma”

Aqui há a deturpação da narrativa, que primordialmente nos faz crer em um estupro de baixo pra cima, em seguida explicita a necessidade de se corromper a imagem à luz da verdade, o estupro é social e de ordem contrária, moral. Os traficantes não estupraram a personagem, foram peças de uma manipulação que visava a destruição moral de Peixoto, testemunha platônica de um desejo burguês. 

As discussões são alongadas para a arte de tecer o longínquo vínculo da sexualidade burguesa que urge em usar o trabalhador para seu prazer. O contínuo, boy na nova versão, é o retrato desse sequestro do lugar do proletariado em meio aos desejos de seus patrões. 

Isso tudo é um olhar proposto por Nelson Rodrigues, mas onde a nova adaptação consegue acertar, deve tudo ao texto, pois Moacyr Góes se contenta em buscar a linguagem televisiva para compilar as ideias na fórmula direta, com cortes rápidos e interpretações incisivas. Se olharmos como um didatismo da proposta anterior, poderíamos até compreender algumas padronizações da forma, mas o filme não busca concretizar as teorias anteriores em uma facilidade de acesso, apenas busca o olhar mais comercial para o mesmo. Logo, a contratação de Leandra Leal e João Miguel são compreensíveis, e acertadas. Ambos compõem o drama à estilo próprio, sem se pautar em uma pousada concepção daquilo que deveria ser, mas do que é. 

Uma pena que as adaptações de “Bonitinha, mas ordinária” buscaram esse olhar mais imediato das relações construídas por Nelson, que apenas demonstra o apoio da reflexão de outrora, não uma encarnação adaptativa da contemporaneidade ou de caráter único. Se o filme de Braz conseguia uma encenação canastrona a partir do cinismo do texto, o longa recente concebe uma estrutura bastante pragmática e programática que acaba sendo facilmente engolida pela indústria, uma intenção boa que se diluiu na cinematografia e misancene (um oferecimento de Herbert Richers). 

O Fla x Flu segue em adaptações e projeções do real. O mineiro só é solidário no câncer. 

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