Biutiful

Penetrando no sofrimento dos medos projetados

Por Fabricio Duque

Biutiful

O cinema do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu (de “Amores brutos”, “21 gramas” e “Babel”) tem a característica de penetrar no sofrimento dos seus personagens – fracassados e esperançosos, fornecendo ao espectador a sinestesia das dores e medos projetados. Iñárritu escolhe a inerência como material bruto. Os que participam da trama embarcam em um mundo sujo, sem pudores, violento, verborrágico e visceral – como exemplo animais que são cortados e sangram. Cada um tenta sobreviver a sua maneira, com trabalhos lícitos ou não. Não há o julgamento de caráter. A opção é respeitada. O que faz o individuo mudar é ele mesmo ou algum evento inesperado. Quando a morte é iminente, a redenção corre contra o relógio para acontecer. A ética é maniqueísta. Convive com a necessidade de realização de uma ação boa ou má. Sempre há o argumento válido e aceitável – dos dois lados – a cada decisão escolhida. O seu novo projeto “Biutiful”, representa um recomeço, conservando essas características.

É o primeiro longa sem a participação do roteirista Guillermo Arriaga (diretor de “Vidas que se cruzam”) e é, também, o primeiro filme da Cha Cha Cha Producciones, estúdio criado por Iñárritu, Alfonso Cuarón (de “A sua mãe também”) e Guillermo del Toro (de “O Labirinto do Fauno”). Com uma equipe desta, é impossível não dar certo. Os roteiros tendiam ao gênero de filme coral, que sã histórias com a mesma importância, sem um núcleo principal, tendo como mestre maior Robert Altman. Recentemente Rodrigo Garcia imprimiu o estilo em “Destinos Ligados”. Desta vez, há uma trama principal. As outras interagem, tangenciando ao desfecho. Uxbal (Javier Bardem, excelente, ganhador do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes 2010) um herói trágico, pai de dois filhos, está sentindo a morte chegar. Ele luta contra uma realidade distorcida e um destino que trabalha contra ele, o impedindo de perdoar e amar, para sempre. A narrativa é conduzida, em seus 147 minutos, da imersão à emersão, com uma fotografia e camera que complementam a competência. Experimentam-se imagens e enquadramentos.

A câmera de “Biutiful” participa ora como personagem, ora como observadora, querendo a todo instante absorver o abstrato do que se sente à metalinguagem concreta do que se vê. É um processo de aprofundamento. Os elementos são fornecidos aos poucos, assim como um jogo de quebra-cabeças. Conectam-se ações, diálogos, pessoas, historias. O foco principal está em Javier Bardem, que interpreta sem medo de se entregar totalmente. Isso gera a cumplicidade do convencimento para com o espectador. Até temas que poderiam desencadear o clichê, como a incursão no universo espirita de se comunicar com os mortos, comportam-se com realismo fantástico, expondo a satisfação plena de quem assiste. A escolha pela forma não linear é outro ponto interessante. O início pode ser o final ou não, com a estupenda trilha sonora de Gustavo Santaolalla (de “Brokeback Mountain”). Concluindo, um filme que merece muito ser visto.

5Nota do Crítico51

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