Better Days

A mídia e os entraves

Por Vitor Velloso

Mubi

O “polêmico” filme chinês “Better Days” de Derek Tsang está indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e chega à mídia ocidental como um projeto que “enfrentou a censura do governo chinês”. Para além das rotulações preguiçosas, o longa possui uma narrativa espinhosa onde a temática do bullying é tratada como uma verve política material do país em questão. O questionamento comum está em torno das possibilidades de uma representação mais conservadora diante de um cenário internacional onde a China é um alvo constante dos imperialistas de plantão. 

O filme articula sua narrativa a partir de um suicídio que engatilha uma série de repressões e crimes. Não há uma falta de posicionamento por parte da direção, que assume uma linguagem comercial, mas consciente de suas escolhas estéticas. A construção é lenta e cautelosa em sua abordagem, procurando assumir seu objeto primordial na perspectiva da protagonista que sofre os abusos. A câmera persegue seus caminhos, não vulgariza a violência e evita a exposição do suicídio a todo custo, evitando mais polêmicas que seu tema poderia carregar consigo. Diferentemente da irresponsável série norte-americana “Os Treze Porquês”, o longa evita expôr a situação do suicídio de maneira gráfica e possui o mérito em um jogo de plano e contraplano que consegue tensionar a situação sem que haja essa vulgarização da imagem. O fetiche pela violência, tipicamente norte-americano, não é uma tendência aqui. 

Porém, “Better Days” patina em seu ritmo de maneira exponencial. A trama é construída entre os personagens centrais e relações que se desenvolvem a partir da margem gerada pela cobrança obsessiva pela excelência na educação. Ou melhor, pelos resultados no exame nacional. Aqui, há um direcionamento explícito da direção à cultura chinesa, abrindo críticas pouco exploradas ao Estado. Porém, suas principais investidas estão concentradas na condução da polícia no processo investigativo e na marginalização de uma parcela da sociedade que passa a reprimir quem anda conforme a cobrança estatal. O recorte é problemático e perigoso, pois inverte a própria margem. É uma espécie de insurreição contra uma “ordem”, que marginaliza os protagonistas. Essa materialidade que se confronta a partir da realidade e se propõe a uma troca direta na narrativa é um dado que movimenta o eixo principal. 

A questão promove riscos entre o reacionarismo e a alienação absoluta, já que a interpretação atravessa uma frente da representação, costurando essas margens como uma unidade social da China. Por mais que o longa se esforce em um retrato que compreenda a identidade cultural do país, desse bullying violento e dos impactos gerados, acaba reforçando a diretriz dicotômica do Nós x Eles. E aqui, “Better Days” consegue algo interessante, constrói um dos eixos (entre Chen Nian e Xiao Bei) em uma espécie de assimilação das margens. Onde a suposta diferença entre os dois campos é reduzida à consciência dessa marginalização, mas a classe surge aqui como um objeto paralelo que o longa mantém em suspenso até onde lhe convém manipular. A montagem não busca dinamizar esse ritmo arrastado, mas persegue uma cadência que encontra espaços para flexibilizar uma proposta de gênero mais explícita. 

É onde o longa passa a crescer comercialmente, viabilizando os números espantosos que conseguiu desde seu lançamento em 2019, pois a direção recorre aos meios práticos do drama e do suspense. Desde a tensão nos close que fomenta o conflito entre personagens à câmera flutuante que anuncia o fim do preparatório para o exame. O filme perde força quando assume seus diálogos de maneira mais expositiva, já que recorre a alguns propósitos formulaicos, a cena da escadaria é uma mostra de como a não-vulgarização da violência anteriormente, é uma necessidade interna de provocação posterior. A escolha gera algumas dúvidas no caráter da obra, pois os dispositivos soam apelativos e enviesados. É como a necessidade de uma volatilidade crescente nos dramas norte-americanos. 

“Better Days” pode ter sido alçado à polêmico, mas é menos incisivo que divulgam e mais conservador que deveria. Talvez as provocações feitas pelo diretor em torno do cinema chinês tenha sido uma tentativa de inflar sua divulgação, porque o destaque vai girar em torno das polêmicas políticas que o Ocidente busca fomentar. O Filme assistido no Mubi Internacional.

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