Belle Époque

A eterna dicotomia

Por Vitor Velloso

“Belle Epoque” de Nicolas Bedos é um dos casos onde a movimentação dos circuitos brasileiros mira um vácuo na janela. Trata-se de uma questão particular do mercado brasileiro, que mantém seus esforços em consolidar a cinematografia europeia como um pilar de “pérolas” à serem descobertas em meio ao turbilhão de lançamentos. Está claro que o filme é unilateral em sua abordagem e não busca nada mais que os aplausos dos cinéfilos, zonasulescos, engajados ao redor do mundo, a partir de uma linguagem que se limita a seguir os limites basilares da convenção que tenta se munir da comicidade e do “estilo” autoral.

Não há grandes parábolas a serem feitas, além da obviedade de como a trama é amarrada em retalhos diversos, seccionando uma possibilidade múltipla para uma articulação de drama direto, sendo versátil em aplicar o método “autoral” no âmbito mercadológico da coisa. A tarefa não é das mais difíceis, aliás grande parte do cinema comercial europeu está sempre mirando essa mesma construção, as piadas em frases frenéticas, sequenciais, com xingamentos acompanhados de citações constantes. O que pode chamar atenção do público para diferenciar o atual projeto dos demais, é necessariamente sua inclinação com a questão nostálgica (curiosamente denunciada por um de seus personagens), o que formula um cruzamento de décadas, períodos históricos e dramáticas de seus personagens. A questão “irônica” que norteia a obra, serve como uma muleta para todo seu desenvolvimento, desde suas construções dos arquétipos históricos, quanto das cenas de forma mais deslocada. As intervenções no andamento linear dos diálogos, são algumas das questões formulaicas que acabam tornando a superfície algo de fragilidade comum.

A linguagem se debruça constantemente nessa padronização longínqua do que o cinema francês assimilou em sua cinematografia, os diálogos em bares, com seus tons “hollywoodianos”, quase histéricos de tão expositivos, são alguns causos da capilarização norte-americana no “modo francês de fazer cinema”. E o maior desvio aqui, não está nessa vulgarização da transa do capital, mas necessariamente em quão vulgar ela se apresenta. De forma primária, “Belle Epoque” parece querer ceder em tantos chavões que perde qualquer complexidade que buscou em sua pirotecnia dramática e “psicanalista”, que acaba sendo um projeto que mira um intelectualismo fajuto e acerta uma chanchada que quer embriagar meio mundo e discursar incessantemente sobre como a boemia e Freud caminham juntas para desmembrar o contemporâneo e inflar a necessidade do capital. O movimento é reacionário já em sua concepção, pois decorre da complacência com o arquétipo ofertado pelo mercado de cinema internacional, seja ele no âmbito “autoral” ou propriamente das cifras. Esse eterno embate, só reforça os grilhões que tanto travam o cinema contemporâneo que busca o voo das cifras querendo uma propriedade distinta.

Em fato, o filme consegue divertir o espectador em breves momentos, mas as cenas e os episódios são tão espaçados, que acabam desafiando a paciência do espectador desavisado por um “Synecdoche, New York” à Kaufman francês, tramas amarradas entre as próprias tensões dramáticas como uma projeção de realidade. O tédio toma conta, tal como o realizador de outrora, “Belle Epoque”  acaba caindo em filosofia corriqueira, citações prosaicas e um punhado de jogos formais advindos de uma Nouvelle Vague tardia, uma herança torpe e trêmula, que não assume grandes riscos em sua abordagem, a zona de conforto é o playground da mediocridade. Quiçá o longa atingisse suas camadas desejadas, pudéssemos ter uma experiência minimamente sólida ou convincente, não um trigo comercial que acredita ser um joio de autoria.

Se algumas questões do roteiro parecem funcionar no campo das ideias, a linguagem urge para formalizar a transa com o corriqueiro. Os planos médios que enquadram seus personagens com “rigor”, que precede atitudes impulsivas aos berros, com detalhes em cada uma de suas ações, são breves exemplos do que não consegue se estruturar como um filme consciente de suas ações. E essa falta de capacidade em concretizar alguns jogos possíveis na tela grande, demonstram como “La Belle Epoque” apenas quer concretizar sua contundência nos eixos abastados das grandes cidades. O Eurocentrismo possui facetas imperialistas bem aceitas pela burguesia nacional. Conciliação e revisionismo, grandes armas dos vulgares. Se a unanimidade é burra, o consenso é…

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