Beginning

O sacrifício de Isaac e a cinematografia

Por João Lanari Bo

Durante o Festival de Rotterdam 2021

A primeira imagem de “Beginning”, magistral longa de estreia da georgiano Dea Kulumbegashvili, é um master plan tirado de uma das extremidades do pequeno Salão do Reino das Testemunhas de Jeová, em algum lugar no sopé do Cáucaso, na Geórgia: câmara estática, os fiéis chegando e sentando, três ou quatro dezenas de pessoas. Depois de quase oito minutos ininterruptos de cena, um coquetel Molotov voa para dentro da sala e explode em chamas, instalando o pânico. David (Rati Oneli, ator e também um dos roteiristas), o líder religioso da comunidade, projetava imagens e fazia seu sermão sobre o sacrifício de Isaac, quando Deus obrigou Abraão a sacrificar seu único filho, Isaac, para provar sua obediência. Como apoio, David utilizava o texto da “Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas”, a bíblia especialmente traduzida pela congregação Testemunhas de Jeová, que surgiu na década de 1870, na Pensilvânia.

A tradução é a mais literal possível, caracterizando uma das marcas que diferencia as Testemunhas no universo cristão. O escrúpulo é tanto que mesmo uma questão tão insignificante como o uso ou a omissão de uma vírgula, ou de um artigo definido ou indefinido, pode às vezes alterar o sentido correto da passagem original. A crença na destruição iminente do mundo atual em Armagedom é central: somente ao se estabilizar o Reino de Deus na Terra haverá solução para os problemas da humanidade. Na Geórgia, país encravado em uma das regiões mais tumultuadas do planeta, entre os mares Negro e Cáspio e sob pressão cerrada da Rússia, o cenário apocalíptico não é de todo implausível. O incêndio criminoso do pequeno templo, entretanto, não contagiou o filme: Kulumbegashivili e Arseni Khachaturan, fotógrafo bielorusso, nos forçam reiteradamente a um olhar impotente e estático nas imagens que se sucedem. Logo em seguida ao incêndio, um plano afastado registra o entorno em campo aberto, crianças rindo e se afastando, um personagem anônimo se aproximando. A ironia é que essa técnica nos coloca exatamente na posição de Yana (Ia Sukhitashvili, estupenda atriz), esposa de David: seu olhar organiza a narrativa, lenta e estática, pouquíssimos movimentos de câmera, longos e belos planos, como a tomada de Yana deitada ao lado de seu filho impaciente, no chão, com um carpete natural exuberante da floresta em volta do seu rosto.

Filmado em 35 mm, com tonalidades e profundidades que escapam aos pixels digitais, “Beginning” evolui para um recorte de violência muda e abafada, detonadora de um páthos poético de alta intensidade. Afinal, estamos na Geórgia, belíssimo país, rico em tradições culturais, mas afogado em sulcos de conflitos que sugerem uma no end story, a exemplo do que ocorre em Israel e territórios palestinos: independente em 1991 da antiga União Soviética que colapsava, logo envolveu-se em uma guerra civil amarga, que durou até fins de 1994. Hoje duas regiões dentro do país, Abkhazia e Ossétia do Sul, declararam-se autônomas, apoiadas pela Rússia, com a Geórgia mantendo o controle apenas em pequenas áreas dos territórios em disputa. Dea, a cineasta, nasceu em 1986 e até os 17 anos não assistiu nenhum filme, abrigada e protegida na pequena cidade onde passou a infância, Lagodekhi, no sopé das montanhas do Cáucaso: pequenas e escuras estradas vicinais, casario esparso, belas montanhas e planícies. Acabou indo para Nova York para completar sua formação na Columbia University. Seu curta-metragem de estreia, “Espaços Invisíveis”, foi indicado para a Palma de Ouro em Cannes 2014. Depois, ganhou prêmio para desenvolvimento de roteiro no Festival de Roterdã e residência em Paris. Para rodar “Beginning”, escolheu voltar às adjacências de Lagodekhi.

Uma presença importante no filme foi o produtor executivo, Carlos Reygadas: a tensão que paira nos silêncios em meio aos diálogos esparsos, difundida em muitos dos planos ao longo do filme, explode na cena do estupro de Yana. Embora filmada de longe, com sons diegéticos de um rio próximo, a cena é contundente, e lembra as atmosferas do diretor mexicano. A afinidade eletiva entre direção e produção certamente contribuiu para o resultado final, mas não há dúvida de que as soluções da jovem diretora para combinar dramaturgia e cinematografia são originais e impactantes. A intensidade conferida à personagem feminina, por exemplo, constrói-se na imanência dos planos em que ela atua: suas expressões e constrangimentos parecem estar contidos de modo fungível em sua natureza corpórea. A sequência em que ouve o (suposto) policial no extracampo, na sala de sua casa, é aterrorizante: um plano médio, recuado, iluminado de forma soberba, mostra Yana sentada de lado na mesa, introjetando a violência absurda da fala. É dos poucos momentos em que a câmara faz um giro sobre o eixo, uma panorâmica, para enquadrar o interlocutor. A vida é um teste que fortalece a fé, como sugere a cena inicial do filme que remete ao sacrifício de Isaac. Resta a Yana cumprir o desígnio dos fiéis.

A narrativa, por fim, se deixa contaminar pela absorção, no corpo de Yana, do ambiente opressivo, misterioso e onipresente. Seu marido decide confrontar os agressores: na Geórgia, não obstante, prevalece uma maioria cristã ortodoxa indiferente e por vezes violenta. Em 2001, a Human Rights Watch encaminhou memorando ao governo norte-americano sobre perseguição religiosa no país contra grupos não-tradicionais, especialmente as Testemunhas de Jeová. Casos de omissão policial constam do documento: um deles, ocorrido em 1999, foi liderado por Basili Mkalavishvili, sacerdote ortodoxo georgiano excomungado, afetando 300 pessoas reunidas para oração em um local privado na capital Tbilisi. Quinze a vinte agressores invadiram o local, com a ajuda de policiais que forçaram o portão, e espancaram a audiência. Em “Beginning”, o longa de Dea, exibido na mostra Limelight do Festival de Roterdã 2021, o conflito religioso é como uma brisa gelada que que sopra nas planícies. Ao final, uma poderosa mensagem bíblica se imanta na tela: do pó vieste, e ao pó retornarás (Gênesis 3,19).

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