Babenco, Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

O afeto possui nome

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Olhar nos olhos de alguém e saber que o carinho ali presente é genuíno, revitaliza qualquer pessoa. Ao vermos como Babenco olha para Bárbara Paz e como ela o filma, é impossível não notar que cada ato é de uma delicadeza fatalista. O adjetivo não se refere a saúde em si, mas a uma natureza tão intensa que recusa palavras e encontra o fim na esquina da felicidade.

Quando olhamos para o companheiro ou companheira e enxergamos uma admiração pela pessoa, uma necessidade de simbiose de todas as maneiras, uma vontade de morrer enquanto ama até que as forças se esgotem, não importa de quem. Não permitir que haja perdas por excesso, mas sentir que a hipérbole atravessa ambos com uma volatilidade que nega a sanidade. E que o racionalismo seja mantido de fora da equação, porque a segurança ecoa poesia e as cores acompanham o sorriso espontâneo.

Bárbara, capta isso em seu filme.

Seu documentário “Babenco, Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” está muito acima de uma ode a carreira de Hector Babenco, é uma espécie de declaração fílmica que irá satisfazer parte dos desejos do cineasta. Dar a ele o vislumbre de um sonho que comenta durante a projeção. O ato soa uma despedida, assim como foi o último longa de Babenco. E não diz respeito a indivíduos, mas como são os olhares entre eles e como essa relação se dá em perspectiva da convivência. Uma das maiores belezas é afastar o ato político que poderia se consolidar através de dois artistas, mas Bárbara não permite nada além do afeto e dessa maneira rege as imagens como quem escreve uma carta de amor que ecoa pela sala de cinema e amplia, no ecran, a dimensão dos pequenos gestos, redimensionando de maneira grandiosa a relação.

Em quesitos formais a diretora assume em seus primeiros minutos, em um diálogo com Hector, que não possui a técnica para filmar aquilo que deseja, e o mesmo tenta explicar de maneira impaciente, mas sem a grosseria de quem não almeja o olhar do outro. É claro, “Babenco, Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” possui então seus recursos intimistas que são limitados pela aproximação do casal, mas não pela parte técnica e sim pela abdicação da autora na interferência de uma terceira pessoa naquela situação, logo, a câmera é enquadrada e dali não sai até que o tempo se esgote. Essa escolha é vigorosa na proposta do documentário por reconhecer que a linguagem convencional e estruturada de um processo cinematográfico como este, pode ser engessadora em sua essência, assim definindo que seu caráter não estará preso há uma concepção pré-definida, a liberdade que se tem em tela é encantadora. Sendo versátil formalmente e concretizando uma verve que sintoniza com as texturas de um amor indefinível.

Por vezes, é possível reconhecer em Bárbara um caráter poético de sua câmera e montagem, passeando por paisagens e cômodos como quem se permite sentir a vida na dança do suspiro. Para além da imagem, o filme possui uma alma com tom que vibra diante do espectador, fazendo este reagir com um breve sorriso constante no rosto, pois ainda que haja momentos onde o tungstênio de nossas vidas domine a estrutura, no fim, sabemos que de ponta a ponta nossos rostos se alegram com a sinceridade que se monta na projeção. Para além desta possibilidade, há uma montagem que busca fragmentos de obras do cineasta e contextualiza à frente do relacionamento, mostrando que a obra é atravessada diretamente pela personalidade de Babenco e este por B. Paz.

“Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer parou” é a síntese de como o cinema brasileiro reinventa com frequência a forma documental e consegue criar obras que tocam na alma das pessoas com a delicadeza das relações humanas. Indo tão distante em sua leitura formal que impressiona em cada detalhe. Bárbara Paz entra para o hall das cineastas que devemos acompanhar as produções, pois além dos prêmios de Veneza, deixa uma pérola para o Brasil e pro mundo.

 

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