Azor

Fique calado. Cuidado com o que você diz

Por João Lanari Bo

Durante o Festival de Berlim 2021

Azor

Azor”, o longa-metragem de estreia de Andreas Fontana, aposta nas entrelinhas do discurso cinematográfico para veicular uma das pauladas políticas mais contundentes que já se viu no cinema argentino. Argentina: esse nosso vizinho a um só tempo vibrante e tumultuado, palco de uma vida política que alternou, no século 20, ciclos de autoritarismo e democracia, assassinatos políticos e brilho literário. Fontana, cidadão suíço-argentino, idealizou uma situação inusitada: um banqueiro privado da Suíça chega em Buenos Aires para retomar os contatos com os clientes que seu antecessor, Rene Keys, misteriosamente desaparecido, cativou ao longo dos anos. O banqueiro, Ivan, e sua mulher, Inês, ambos franco-suíços, encaram logo na chegada, nas ruas de Buenos Aires, dois jovens sendo interrogados arbitrariamente por indivíduos armados. O ponto de vista, do interior da limusine que os transportava, indica o deslocamento espacial da narrativa: não há com que se preocupar, comenta o motorista, demarcando o território da impunidade do ambiente oligárquico que o casal irá frequentar na sequência, onde prevalecem visitas sociais e festas à beira da piscina, cortesias educadas e interesses velados. A despeito de todas as mesuras, uma certa obscenidade inunda os espaços claros e abertos por onde a retórica da classe dominante é veiculada, concorrendo para o clima de tensão da trama. A sensação desse filme meio fora do tempo, passado e presente intercambiáveis, é que a história não acabou, parece persistir em algum lugar. Depois que o cinema platino produziu diversas obras sobre esses períodos tenebrosos, de mortes, desaparecimentos e torturas, eis que aparece um filme que não visa provocar indignação explícita e verborrágica no espectador, apesar de mergulhar no âmago do regime: a reação ficaria entre perplexidade e mal-estar, seguida de rechaço silencioso. Não há violência nem sangue: trata-se de um thriller labiríntico, com um personagem-ausente no centro – lembrando, como notado, “O Terceiro Homem” e o inesquecível Harry Lime de Orson Welles, realizado em 1949.

Banqueiro privado não é banqueiro comercial, alerta um cliente: uma coisa é pegar um jato comercial: outra é viajar num jatinho privado; e os suíços, tradicionais banqueiros de ditadores e corruptos, tem expertise no assunto. Ivan – excelente atuação do belga Fabrizio Rongione – teve a sorte de herdar o assento do pai em um conselho de administração na matriz em Genebra. No seu esforço de relações públicas, procura desculpar-se pela partida abrupta de Rene: os relatos que ouve sobre o colega vão de depravado a charmoso, de camaleão social a eloquente. Rene Keys é um enigma – e Ivan percebe esse impasse à medida em que interage com os clientes, e confronta-se com as contradições do ofício. Em “Azor”, sua mulher é a consciência aguda da função que exerce: seu pai estava certo, ela repreende o marido, o medo torna você medíocre. Inês (Stéphanie Cléau) é a perfeita esposa-coadjuvante, que nove entre dez banqueiros privados escolheriam: discreta, bonita, afável e focada. Para dirimir dúvidas, afirma: meu marido e eu somos a mesma pessoa – ele. É ela quem lembra o significado da palavra azor, uma espécie de senha privada no mundo financeiro suíço: fique calado, cuidado com o que você diz. Outra expressão-código, ainda segundo Inês, é cousin Antoine: utiliza-se quando você está em um coquetel, e avista um conhecido que não quer cumprimentar, arremata. Munidos desses códigos, o casal circula com desenvoltura pela alta sociedade portenha, fazendas, belos cavalos, clubes privados – e corrupção: o banqueiro, afinal de contas, é quem vai providenciar a remessa do capital desse pequeno grupo privilegiado a um lugar seguro.

Na galeria de personagens sinistros, quem se destaca é o Monsenhor Tatoski, encarnado por Pablo Torre Nilsson, filho de Leopoldo Torre Nilsson, um dos grandes do cinema argentino. Ao mesmo tempo em que dá lições de realismo político ao recém-chegado, propõe investir no mercado de divisas internacionais – Ivan empalidece, desorientado entre os assassinatos patrocinados pelo Estado e o alto risco das operações cambiais. Há um momento de “Azor” em que o banqueiro acha um calendário, no apartamento vazio de Rene, e insere o filme na cronologia argentina. Estamos no final de 1980, no meio da época oficialmente denominada de Proceso de Reorganización Nacional, que começou no golpe de Estado de 1976 e terminou em 1983 – com a Junta Militar, que governava o país, fragilizada pela derrota humilhante na aventura militar conhecida como Guerra das Malvinas, em 1982. Reorganización é um eufemismo cruel para o que se passou na Argentina – um governo burocrático-autoritário, que se caracterizou pela prática, entre outras, de sequestro, desaparecimento e ocultação da identidade de filhos de desaparecidos e presos políticos. Ou seja, pela prática de um plano sistemático de terrorismo de Estado.

 

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