Através do Fogo | Crítica

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Esculpindo Um Monstro

Por Michel Araujo

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2019

“Através do Fogo” (2018) conta a história de um recém-formado bombeiro, Franck (Pierre Niney), que após se sacrificar num incêndio para salvar seus colegas fica severamente queimado e passa por longos meses de cirurgias, fisioterapias e uma árdua reintegração social. Antes do incidente, Franck tinha uma carreira promissora na corporação, uma bela esposa, Cécile (Anais Demoustier) e filhos gêmeos a caminho de nascer. A questão central do filme é como se reerguer das cinzas, literalmente, tendo visto tudo se perder diante dos seus olhos. E como que a partir de um homem exemplar é possível se extrair um verdadeiro monstro interior.

Ao longo do processo de recuperação de Franck existe uma nítida metáfora de renascimento. Ele permanece imóvel, ligado a aparelhos como a um cordão umbilical, sem falar, e quando finalmente recobra a fala sua primeira palavra é um fraco e áspero “mãe”. Franck vem, então, de volta ao mundo. Mas ele ainda não está pronto para esse mundo, assim como um infante prematuro. Entretanto ele não se dá conta disso até ferir a si mesmo e aos seus entes queridos no processo de recuperação. Numa das visitas que recebe, Franck exige que sua esposa se dispa cruamente na sua frente, se reconhecendo como um monstro e mesmo abraçando essa nova faceta que ele parece ter descoberto em si, ante a desgraça que o acometeu. A cena entretanto aparenta menos ser uma necessidade dramática na história do que uma chance aproveitada de explorar a nudez feminina.

A perversão e o estado mental obscuro em que se encontra Franck poderiam ser melhor explorados sem a gratuidade com que a câmera de cinema vislumbra uma nudez feminina de corpo inteiro. Para além disso, ao retornar para casa pela primeira vez, as filhas pequenas de Franck choram de pânico ao ver o rosto desfigurado do pai, um ponto na narrativa que aparentou previsível, e também acaba por não oferecer o impacto potencial que tinha. Após toda essa sucessão de episódios traumáticos, Franck entra em crise e em reclusão. Renegando sua família e a si mesmo, ele irá passar ainda por mais uma fase de tratamento antes que possa reestabelecer conexão com o mundo.

Até o ponto em que Franck consegue se reconciliar com sua família e se reintegrar ao meio social, o filme acumula tragédia em cima de tragédia, quase capitalizando o sofrimento do protagonista. O que parece um encadeamento verossímil num drama trágico acaba por ser quase um abuso do personagem pelo roteiro – e por que não do público? – numa longa estrada de sofrimento que resulta num “novo” homem, muito embora Franck pareça ter tanto fisicamente como emocionalmente perdido muito mais do que ganhado. Claro, no processo de renegar sua família para ter de conquistá-los de volta, o jovem ex bombeiro se dá conta do verdadeiro valor de sua esposa e suas filhas – ou ao menos é isso que o filme parece querer passar – mas toda a espiral descendente que o personagem percorre parece ser apenas um tanto demais. Por mais de uma vez o vemos surtar e explodir, embarcar num estado de frenesi psicótico decadente, e ao fim o vemos calmo, resignado, aparentemente reabilitado… e essa transição tão grande não foi feita da maneira mais sólida.

Para além do trabalho narrativo os aspectos técnicos do filme não impressionam muito. A fotografia com baixa saturação de cores e uma luminosidade esmaecida parece ter sido retirada de um livro de “receitas de drama filmado na era digital”. A cena em que Franck se acidenta de fato parece hiper expositiva e de extremo mau gosto em colocá-lo em câmera lenta pegando fogo por tanto tempo ao sair do prédio onde havia o incêndio. Não é apenas uma questão de duração do tempo, mas a maneira como foi filmado, enquadrado, exposto. E o efeito de CGI pobre do fogo no corpo de Franck também não coopera com a cena. A feiura que o protagonista confronta em si – tanto em sua aparência como em seu espírito – é muito mais nítida na estética do filme do que no personagem. Na tentativa de esculpir um monstro cinematográfico, “Através do Fogo” (2018) obteve sucesso, embora menos com um personagem bem explorado do que com um filme árduo de se assistir.

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