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Ato Noturno

Entre o autoral estético e o conceito performativo

Por Fabricio Duque

Festival do Rio 2025; Mostra de SP 2025; Fest Aruanda 2025

Ato Noturno

O ser humano tem em seu íntimo imutável a necessidade de definir as coisas, criando expressões que buscam resumir toda a ideia do conceito. Há pouco foi trazido o termo performativo, que por sua vez é completamente diferente da arte performática real em si. Nesta nova definição, a ação se torna uma explícita exposição do que os outros acham legal de se gostar. O tema foi levantado no episódio 34 do programa “Não Importa”, do Porta dos Fundos (disponível no Youtube), com Gregório Duvivier, que disse “O gostar se confunde com o mostrar que gosta”, e com João Vicente de Castro, que complementou: um “outdoor da personalidade”. Pois é, esse termo, também podendo ser chamado de Poser, um quanto tanto pejorativo, sugere a falta de substância, fingindo ser o que não é para participar e pertencer de forma “mais legal” à massa e assim se sentir confortavelmente enturmado. Isso pode muito bem ser atribuído a uma boa parte do cinema contemporâneo. Não o que embasa a proposta da narrativa experimental, mas aquele que se desvincula do lado genuíno e orgânico e apresenta um comportamento que foge da veracidade do gostar. Tudo neste grupo é encenado, chegando a ser “canastrão”.

Há ainda uma preocupação demasiada com o que o outro irá achar, com a intenção julgadora em tom blasé do outro e com que o outro acha que é o melhor. Pois é, toda a questão nesses filmes não está na obra e sim em seu receptor. É como o livro que um autor escreve procurando agradar a gregos e troianos e ainda tentar conservar a ideia do seu gostar. Sim, é bem complexo e incompatível. Isso inclui toda a performatização de gênero, tanto comportamento-sócio-existencial, quanto narrativamente cinematográfico, tendendo assim o resultado a uma superfície que tem medo de se aprofundar, talvez pelo receio maior de não conseguir sustentar os “gostares” auto-alimentados da nova construção social. E nessa seara reside o novo longa-metragem “Ato Noturno”, da dupla de cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (de “Tinta Bruta”, “Beira-Mar“), é inegavelmente um filme com estrutura performativa. De performar e simular a ideia. Mas não totalmente, especialmente pela condução atravessada da encenação dentro da encenação.

Exibido inicialmente na mostra Panorama do Festival do Berlim 2025, e depois na mostra competitiva Première Brasil do Festival do Rio no mesmo ano, “Ato Noturno” pode ser assistido como uma experiência estética à metafísica, à arte processo antes da performance e à sugestão do noir moderno, mais distante ainda. Seus diretores, ainda que gaúchos, e com pés em influência berlinense, quiseram construir uma obra universal, de thriller iminência ao perigo e de flerte com o cinema de suspense erótico arthouse pornô-soft-gay, se desenvolvendo no meio dos bastidores de uma peça de espetáculo de dança, numa sensação cênica de sonho acordado, em um que de “Suspiria” na versão de  Luca Guadagnino, entre até a quebra da quarta parede. É aí que “Ato Noturno” consegue se desprender do conceito performativo e adentrar no estilo de ensaios que parecem verdades, por um cotidiano de realidade teatralizada ao coloquial (num que atmosférico de David Lynch e suas projeções-quereres), trazendo assim os arquétipos da cidade perigosa, dos aplicativos de busca de sexo, dos garotos de programa, dos clientes “famosos” não assumidos homossexuais. Todos ali aceitam o perigo.

Como disse “Ato Noturno” tem mise-en-scène visualmente plástica, em luz, sombra e atos sexuais estéticos, com tesão, vontade e “instintos selvagens”, com um que de François Ozon. Mas é aí também que a confusão começa. Essa ambiência soa cada vez mais vazia. Mais solta. Será uma alusão a esses bastidores do teatro sendo feito? É nesse ponto que autoralidade começa a se tornar performatividade (por se assemelhar a “Sonhos”, de Michel Franco). “Para ser protagonista você tem que oferecer o que eles querem da gente e abrir mão de outras coisas”, diz. Uma crítica à dificuldade que os atores têm de conseguir trabalho? “Para que fazer TV se teatro está dando certo”, continua. E assim, questões sociais (e estruturais) são incluídas, entre testes de Zoom e telas divididas, sexo casual, “putaria” no parque (no estilo “Parque de Diversões”, de Ricardo Alves Jr.) como a chance a pessoas pretas e aos gay (que precisa o “transformar em macho”, “apagar fotos do Instagram” e viver na imaginação-desejo dos outros – tudo para “atender a demanda”, “construir o imaginário” e se portar sob “cláusula de conduta”). Quem é o “candidato perfeito”? O branco? “Aproveitem cada chance que vocês têm no palco”, a frase não poderia ser mais democrática e livre de qualquer influência politicamente correta. Ali, o melhor fica.

A questão principal que “Ato Noturno” traz bem que poderia ser datada, mas infelizmente não. Está mais atual que nunca. Com tantos gays, lésbicas, trans e toda uma comunidade LGBTQIAPN+ por trás, sem trocadilhos, a pauta ainda gera assunto e polêmica. Nisso, verdadeira e necessariamente, a narrativa talvez deva ser mais performativa mesmo, para assim “desenhar” aos que não conseguem aprender que existências são plurais e possíveis dentro das patologias idiossincráticas de cada um. E assim, no ímpeto da impulsividade da criação, “Ato Noturno” se atropela, especialmente por seus diálogos mais anti-naturalistas, suas ações mais previsíveis, suas reações mais clichês, mas ainda assim a alma do “underground” está ali com seu fetiche e a radical, catártica e irracional “saída do armário” com a “levada do fetiche” ao extremo do prazer buscado. Perco a vida, mas não perco a gozada!

3 Nota do Crítico 5 1

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