As Bruxas do Oriente

Representações de um contexto

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de SP 2021

“As Bruxas do Oriente”, de Julien Faraut, é um documentário memorável pela riqueza de seu material de arquivo e no trato de suas personagens centrais a partir de um momento em que eram relegadas ao esquecimento no banco de reservas. O filme parte dos próprios relatos e das imagens para construir um imaginário em torno do triunfo de uma seleção de vôlei feminino do Japão, que entrou para a história com os títulos que venceu.

Neste vasto arquivo, o confronto com a URSS toma boa parte da projeção e dos depoimentos, que se debruçam nas qualidades do jogo, nas dificuldades, na pressão e na repercussão midiática da(s) partida(s). Mostrando não apenas como o discurso procurava inflamar essa competição particular entre as seleções, mas possuía julgamentos explícitos entre ambos países. O longa não se prende à refrega de representações políticas, ainda que utilize os trechos como grau de exposição primário, sem fazer nenhum tipo de intervenção. A postura revela um distanciamento com qualquer imbróglio dessa natureza, reiterando o conteúdo agudo que há ali, em especial do lado japonês. Contudo, um dos méritos de “As Bruxas do Oriente” é conseguir construir essa narrativa a partir de dispositivos e formas distintas ao longo da projeção. Além das filmagens reais, de jogos e treinamentos, e dos depoimentos, o projeto insere animações que reforçam o caráter místico dessa seleção em particular, seja na construção histórica dessa percepção, ou na formalização da mesma através do jogo de representações na mídia.

A maneira como essa costura é feita cria uma dinâmica particular para um filme que não se propõe apenas a exibir um jogo ou seu contexto, mas leva em consideração a própria trajetória de como as atletas estão hoje em dia, face ao passado e toda a repercussão que isso teve em suas vidas. Como essa relação é feita através de uma montagem que sabe os momentos de acelerar e cadenciar para que o espectador assista bons trechos da partida na íntegra, a experiência vai se moldando de acordo com a proposta da representação. É um esquema que funciona muito bem durante a projeção, justamente por reconhecer o contexto como uma questão de progressão, desde o descrédito recebido por parte das jogadoras até o clímax dessa trajetória. Em algum momento o ritmo sofre uma queda, já que existe um claro ciclo em andamento, com repetições de temáticas ou questões a serem abordadas, levando a um certo esgotamento. De toda forma, não é o suficiente para criar um vácuo incontornável no mar de estilizações feitas por Faraut.

E este ponto pode acabar dividindo boa parte do público, já que esse estilo particular, entre uma certa poesia histórica e narrativa expositiva gera uma certa contradição interna, provocando esse ciclo de repetições. Não há dúvida que existe um excesso por parte da cineasta em transformar toda essa questão presente em “As Bruxas do Oriente” em uma verve que suspende a realidade em favor de uma perspectiva única. O quanto isso irá afetar na percepção individual é imprevisível, mas o fato é que isso é provocado a partir da forma dúbia com que os fatos são apresentados, como citado anteriormente. Em seus melhores momentos, tais conflitos entre a realidade, os depoimentos e as imagens, dão o tom de uma projeção que se arrasta mas convence. Sua virtude é seu maior imbróglio.

Entre a vasta quantidade de material de arquivo e possibilidades de enxergar a mesma temática, o longa exibido na 45ª Mostra de SP é um dos destaques da enxuta programação on-line, que deixou de fora os filmes mais aguardados da atual edição e uma quantidade expressiva dos nacionais, como de costume. Ainda assim, vale uma experiência distinta do consenso exibido.

Trailer

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