Apollo 11

O Passado nos Absolve

Por Jorge Cruz

Houve um tempo em que duvidar da chegada do “Homem” à Lua era a grande questão anticientífica da nossa sociedade. Essa negação, fundada na acertada crítica anti-imperialista ianque deveras exagerada, em outros tempos afastaria “Apollo 11” de uma parte do público, por questão de mero desinteresse. Em 2019, comemorou-se cinquenta anos da vitória dos Estados Unidos em uma importante batalha na corrida espacial, a verdadeira Guerra nas Estrelas. Neil Armstrong imortalizaria a frase “este é um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade”. No Brasil, a transmissão ao vivo do Fantástico daria quase a mesma a audiência do programa de Silvio Santos, uma curiosidade que diz muito sobre o país.

Para relembrar a data, o diretor e editor Todd Douglas Miller resgata imagens de arquivos da NASA e monta um documentário que transmite de forma muito eficiente a complexidade (e fidedignidade) do momento histórico. Focado no período de 16 a 23 de julho de 1969, nos apresenta a trajetória completa da tripulação do foguete que dá nome ao filme. Equilibra passagens informativas, auxiliadas pela adição de artes gráficas que facilitam a compreensão, com o deslumbre das imagens do lançamento da Apollo e, claro, do espaço. A trilha sonora de Matt Morton, muito bem encaixada eis que não quer roubar o protagonismo para si, se utiliza apenas de instrumentos já existentes em 1969. Vale mencionar que o compositor possui poucos trabalhos para o cinema e o sucesso do longa-metragem deverá mudar isso. A produção ganhou força na corrida pelo Oscar 2020 ao ser indicado ao BAFTA de melhor documentário. A crítica aprovou com méritos o produto. A National Board of Review o colocou como um dos cinco melhores do gênero em 2019 e a Associação de Críticos Americanos deu cinco prêmios para “Apollo 11” na premiação direcionada a não-ficção, inclusive o principal prêmio da noite.

Boa parte das capturas foram realizadas pelos próprios astronautas (além de Armstrong, vale citar Buzz Aldrin e Michael Collins). Portanto, a perspectiva acerca da representação a ser resgatada na mesa de pós-produção, cinco décadas depois, imaginou esse caráter mais exploratório e pesquisador. Mesmo assim, “Apollo 11″ prende a atenção com facilidade. Algumas das sequências mais espetaculares, entretanto, reciclam arquivos de outra missão, da Apollo 8. São os momentos em que o foguete é lançado, com a possibilidade de aproximação do rastro de fogo produzido. Notas de produção indicam que Miller e sua equipe apontam quando há essa ressignifcação, um expediente comum no filão de documentários que se valem apenas de material pré-existente. Para não comprometer a boa ambientação do público, essas observações não ocorrem no momento exato, portanto, merecem ser sinalizadas.

A divisão da tela para, em muitos momentos, apresentar uma montagem paralela (geralmente confrontando a sala de controle e os astronautas) é apenas um dos acertados artifícios para que a narrativa não se mostre atropelada. Apesar da decisão facilitadora de mostram a missão em cronologia, a equipe do documentário não quis abrir mão da contextualização científica. Pode não dizer muito a boa parte do público, mas tem o poder de amplificar a sensação de total veracidade do que estamos assistindo. Há certo exagero na manutenção de alguns diálogos puramente técnicos, mas vale repetir que o objetivo de quem produziu as imagens originais era de reportar, criando um relatório para ser explorado internamente. Portanto, o longa-metragem pode ser considerado exitoso em seu objetivo, dada a dificuldade de transformar onze mil horas de material bruto em apenas noventa minutos de obra audiovisual inteligível e aprazível.

O acesso irrestrito aos arquivos da NASA possibilitam novos ângulos da caminhada de Armstrong, principalmente da janela da Apollo 11. Momento que ganha um significado maior do que o simples registro histórico. Ao contrário de outros documentários badalados de 2019, como Amazing Grace e State Funeral, o ineditismo está longe de ser o atrativo aqui. A produção é lançada cinquenta anos após o fato e encontra um mundo terraplanista, que condena o cientificismo e, aos moldes da Idade Média, tenta buscar um caminho sacrossanto para as questões humanitárias. “Apollo 11“, constituído de maneira que se apresenta como prova irrefutável, se torna mais do que o desenrolar de belas imagens. A negação do conhecimento e a desinformação são táticas que tornam a História do mundo, com muito mais baixos do que altos, em algo cíclico. Ou seja, em uma época onde o revisionismo coloca nossa sociedade à beira do precipício, assistir à chegada da humanidade à Lua em 1969 parece ter se tornado, também, um ato de resistência.

 

 

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