State Funeral

Ausência Sentida pela Presença

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

O que fazer com horas intermináveis de gravação do anúncio de morte e velório de Joseph Stalin, comandante do regime soviético entre 1941 e 1953. “State Funeral” segue o caminho que, se não é o único possível, sem dúvida é um dos que mais dialoga com a produção cinematográfica russa clássica. A direção do ucraniano Sergey Loznitsa e a montagem do lituano Danielius Kokanauskis, em comunhão com a trilha sonora faz dessa uma das obras mais relevantes do Festival do Rio 2019, onde se encontra exibida dentro da Mostra Panorama. O cineasta tem como objeto comum de suas obras o debate acerca do legado da União Soviética, quase sempre a partir de imagens de arquivo resignificadas.

Chama a atenção em “State Funeral” o apreço pela construção das imagens exprimido já na fase de filmagem. Um exemplo á a representação dos soviéticos a partir de closes, em uma espécie de tristeza estilizada. Dentro da política de idolatria promovida por Stalin, por várias vezes nos questionamentos se aquele cortejo ordeiro e respeitoso, sem que a aglomeração de gente tivesse alguma consequência, é fruto da reverência afetuosa ou temerosa ao líder. Enquadramentos que geram até dúvida acerca da ficcionalidade em algumas passagens. Por resignificar material pré-existente o juízo de valor dessa obra é bastante nebuloso. Por isso, de forma acertada, seus realizadores optam por mergulhar de forma apaixonada pelo ecrã, tirando prazer da imagem pela imagem.

A sessão lotada do cinema não manteve seus assentos completamente ocupados por muito tempo. Há quem tenha desistido de “State Funeral” com vinte minutos de projeção, o que põe em dúvida se houve sequer a leitura da sinopse. Há quem tenha acreditado no hype apostando que Loznitsa disponibilizaria algo além da crueza do material brito. Ele entrega, claro, porém depende de um diálogo muito mais comandado pelo espectador do que pela obra.

O filme se divide basicamente entre o cortejo para ver o corpo inerte de Stalin, a chegada de delegações de outros países e imagens e sons de jornais e discursos que trataram do fato durante aqueles dias do ano de 1953. A música é quase uma trilha de ninar, que se repete insistentemente até uma quebra provocada pela Marcha Fúnebre de Frédéric Chopin. Parecemos diante de uma interminável espera de SAC via telemarketing, em que obrigatoriamente precisamos de algo que nos dê ação. Ela acontece na hipnose causada pelas sequências lindamente registradas e tão bem conservadas – em cores e em preto e branco. Há quem tenha optado por dormir, conversar ou até mesmo colocar em dia as mensagens pelo celular. Outros decidiram ir embora, não sem antes resmungar. Um senhor se dirigiu à frente do cinema e, em um gesto de despedida, gritou “Viva Trotsky!”.

Portanto, “State Funeral” oferece muito mais formas de fruição do que um produto audiovisual convencional. Não há como sair incólume de sua sessão. Há um esmerilhamento da própria ancestralidade russa na tela, algo tarkovskyano de esculpir o tempo, de certa maneira. Já nas reverberações de Serguei Eisenstein fica a certeza de que a montagem é um conjunto de escolhas. Há muito mais povo do que poder na tela, por exemplo. Mesmo que cada um da platéia chegue às suas conclusões, essa abordagem não deixa de ser fundamental por ser a única fundamentação imediata ao alcance do espectador.

A espetacularização da morte é outra reflexão que o filme permite. Assistindo a “State Funeral” alguns poderão se lembrar do show montado pela desculpa de velório de Michael Jackson, em 2009. Uma homenagem de corpo presente que não tinha corpo e ocorreu semanas após o falecimento do artista. Mesmo assim muitos choraram, eis que o esgotamento da vida ali se materializava. No documentário são identificadas inúmeras reações de desespero de pessoas quando entram em contato visual com Stalin. Há também velórios sem corpo espalhados por toda a União Soviética, em um lamento idólatra pré-globalização.

Interessante deixar para os créditos finais a contextualização acerca dessa mitificação do líder morto. Os mais impressionados poderiam entender que sua morte teria sido um mola propulsora para a nação socialista reconhecer seu legado, o que soaria exagerado. Porém, fica a sensação de ser genuína a paralisação da classe trabalhadora quando as bombas informam que o líder era colocado em seu mausoléu. “State Funeral” termina com mais perguntas do que respostas por parte do público, que não sabe se fica encantado ou assustado com a força nacionalista da Mãe Rússia, que mesmo acidentalmente entrega uma grande obra de Cinema.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *