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Aos Pedaços

Existencialismo tardio

Por Vitor Velloso

Durante ao Festival de Gramado de 2020

Abaixo ao materialismo de outrora! Diferentemente de momentos anteriores, onde caçoava da boa vontade do leitor, agora, receio trazer a verve apropriada. Pêsames aos pecadores, de Caronte apenas irão tirar o reflexo da água e quem sabe… uma lagosta. 

Apresentar Ruy Guerra é uma tarefa ignóbil. Um dos maiores gênios do cinema, o materialismo violento em “Os Fuzis”, a poesia violenta de “Os Deuses e os Mortos”, a dialética em violência de “Mueda”, um lirismo amedrontado de “Quase Memória” e agora, um retrato de como o tempo é medonho diante da finitude, com “Aos Pedaços”. Tão medonho quanto o pilar cinematográfico, é seu novo filme. Construção de anos da convivência burguesa em seu cerne de dependência capitalista leva à gangrena cinematográfica. O espelho, objeto tão caro para o ego da classe dominante, é forma e conduite, os reflexos tomam de assalto Bergman para exaltação do existencialismo. 

Da denúncia à renúncia. Reacionários que se protejam, o Papo aqui é outro! É satanás pentecostal interpretado por quem repete nota como um piano quebrado, é “Persona” da Zona Sul que curte um vinho e o charme da fumaça no alto de sua varanda, exalta as obras existencialistas, compreender a dor dos sonhadores! Ei de mirar em Breton e acertar o tacanho! 

É uma pena enxergar em “Aos Pedaços” toda uma construção pragmática de apresentação do pensamento burguês e suas dúvidas, fora as crises existenciais alienantes e o sexo de expurgo. E ainda que Ruy consiga alguns belos planos, tudo cai na árdua tarefa de reproduzir um imaginário sem-vergonha da burguesia e sua crise contemporânea. A misancene dá espaço ao teatral, na iluminação de quem queria o impacto de um Caravaggio e acertou em cheio o sarau dominical da cobertura nas laranjeiras. Oremos pela dualidade criada por Rosemberg anos antes de sua partida, pela chatisse inexorável (assim como a discrição na narrativa inicial) de Bergman e seus companheiros da aristocracia inócua, e então pela quase memória que nos restou dos projetos passados do cineasta moçambicano. 

As tentativas de crucificar o pastor imaginário e o protagonista, soam exercícios primários de um imaginário pré-concebido de um cristianismo tardio, abraçado pelo simbolismo mas abandonado pela ideia. É a concepção burguesa de como sua moral se consolida na crise privada do Eu, do tempo, do esgotamento, da poesia erótica de banca de jornal, um Drummond às avessas, concreto em planos isolados. Uma tentativa de transcriação, no processo mais bruto de uma tradução imagética, que falha por não reconhecer em sua materialidade o maior problema de si, a limitação desse pensamento. É o axioma de Kant transportado à Haroldo em poemas lúdicos e tristes, como quem apresenta uma peça próximo ao Palácio da Guanabara para que os liberais à esquerda compreendam que não é fácil esse processo desnudo de longínqua apreensão de saberes. É a máscara de fumaça que assombra os intelectuais que não se renderam por completo ao processo que iniciaram. 

E isso nos leva a refletir sobre a possibilidade da juventude ser o eixo monumental de algo que vai se deteriorando. Todavia, generalizar não se pode, vide “Sertânia” de mesmo ano. Não podemos ser desonestos também com a história, aliás não só de apartamentos e crises o cinema foi criado com assinatura homônima. 

“Aos Pedaços” é construído em torno de um preto e branco com contrastes drásticos e enquadramentos absolutamente fixos, tomados pelo fetiche da sombra na parede e no chão, com breves devaneios formais, onde a obra aparenta ganhar algum respiro na linguagem, mas mergulha cada vez mais em sua sepse burguesa. Longe de conseguir concluir alguma de suas múltiplas tentações no universo privado, a unidade do filme vai se perdendo em referências, em facetas uníssonas, ciclos que parecem círculos. Se nos primeiros momentos da obra, o tom dúbio, duplicado, traz à tona a possibilidade da dialética enquanto forma de consagração da imagem, o tempo, tão destrutivo da mente de seu protagonista, faz lembrar que, novamente, a silhueta egóica só traz à tona o problema de Narciso e da virtualidade privada. 

Reforçando que os totens cinematográficos brasileiros andam em crises múltiplas, o Brasil vitimou a imagem de um dos maiores cineastas de nossa história, mergulhou-o em verbos não conjugados, balbuciar, refletir e atravessar. Que a burguesia, autarquia da produção intelectual, não compreende o gerúndio, todos já sabemos. Mas a surpresa vem da assinatura, não do conteúdo. 

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    Olá, Vitor, parabéns pelo texto. Vi Aos Pedaços ontem no 48° Festival de Gramado e saí profundamente decepcionado. Os Fuzis é um dos filmes nacionais que eu mais amo, por isso, sempre que o nome do Ruy Guerra é relacionado a algum projeto, minha expectativa sobe às alturas insondáveis.
    Achei o filme monótono, desesperado em se explicar, personagens desinteressantes, cheio de diálogos que não levam a lugar nenhum. Esse era o filme que eu mais esperava ver no festival. Por ora, o pior de todos. Não chega nem nos chinelos de Sertania, que vi 4 vezes e amei demais.

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