Sertânia

O triunfo de Sarno

Por Vitor Velloso

Crítico Convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

De Antão à narrativa da brasilidade do gerúndio, que caótica há de ser enquanto o surto que explode em verve delirante durar. Entre o último suspiro e a pólvora, os Antônios circulam a exposição do deserto brasileiro buscando aquilo que há de ser e que as palavras não dão conta.

“Sertânia” de Geraldo Sarno, não é só o respiro mais vigoroso da Mostra de Tiradentes 2020 até este momento, como chega para mostrar que os mestres do cinema brasileiro, não estão completamente em decadência, pelo contrário, há muita energia a ser dada ainda. De uma força motora quase inexplicável, a obra se apresenta através de um delírio explosivo que vai desencadeando uma narrativa que recusa uma estrutura clássica, saltando em seus tempos como quem urge em contar uma história a ponto de não ser capaz de seguir a linha temporal.

E essa rotatividade das imagens, tão própria de um cinema pau brasil, vem para reivindicar esse espaço, uma obra que assume não só uma estética modernista, como busca conciliar seu ritmo com um ar contemporâneo. Não à toa, distorce as imagens, embaça a própria narrativa, mas centraliza seus esforços em uma questão dramática bastante própria e clara para que o espectador sinta o peso das escolhas de nosso protagonista.

Entre a ressaca alucinógena e o sentido fílmico da polaridade do sertão, o contraste que se revela provocativo em retirar contornos e assumir a deformação social e moral. Se apoiando em colo familiar, o repouso interminável nega aquilo que as deidades insistem, pendulando da tentação à virilidade o ferro e o sódio tocam a areia sem pudor, necessitando o imediatismo tupiniquim, que formal, é volátil e compreensivo.

Neste ciclo de poesias e propostas imersivas de experiência, Sarno demonstra toda a potência cinematográfica de sua obra, que acelera seu ritmo em consonância vertiginosa, com planos velozes, justaposição, gritos, caos, imagens de arquivo. Esse turbilhão de informações, só desacelera quando conhecemos a narrativa que iremos acompanhar ao longo da projeção, entendendo Antão e sua morte. É interessante ver a fonte histórica da oralidade, uma questão tão brasileira, ser resgatada como principal eixo dramático do filme, ainda que a maior potência seja visual. E tal escolha, acaba denunciando o que o longa compreende como verdade em sua estrutura, pois a veracidade de todos os fatos são questionáveis e propõe uma revisitação na ótica formal de tudo aquilo, não à toa, o diretor faz questão de nos recontar determinados passos.

O manifesto modernista contemporâneo, que transforma o Antão em Jararaca, que é assassinado por Gavião, faz desse giro monumental de nomenclaturas e rivalidades, uma necessidade de evocar a epopéia barroquista de um tempo passado cinematográfico, ao mesmo tempo, vomita em alto tom a quebra de sequências dialéticas. Indo além da repetição, mas apontando como a misancene (versão brasileira Geraldo Sarno) é mutável em diferentes camadas, através da negação do processo dramático.

A retomada que o diretor propõe para sua reverência “cinemanovista”, não é complexada em problematizar a temporalidade dessa proposição, pelo contrário, assume uma questão anacrônica dessa forma, absorvendo parte da estética contemporânea e ofuscando suas linhas com uma violência inconfundível. Sendo bruto e seco com uma diretriz que não permite o espectador ser passivo durante a projeção, pois a vertigem lírica é uma força que está muito acima de “Sertânia”, é uma questão propriamente brasileira.

Com esse triunfo cinematográfico de Geraldo Sarno, Tiradentes respira em alívio e pode voltar a comentar sobre os mestres de nossas telas sem a culpa de se racionalizar em excesso as políticas do século XXI. E curiosamente, se histerismo foi uma opção narrativa em “Os Escravos de Jó”, aqui em “Sertânia” é uma explosão de fúria e o vigor de quem não precisa gritar aos cantos do Brasil, sem contexto, que nossa História é manchada de sangue, muito menos laurear o verbo para apontar os inimigos, pois o corpo é a ferramenta dessa gira social.

A violência que os corpos carregam através do tempo, expõe esse Brasil com S que vem sendo esquecido pelos cantos áridos da capital nacional, degola o Brazil com Z e sintoniza suas complexidades com uma proposta que nos faz retomar o que é Cinema com C maiúsculo.

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