Amor em Jogo

O Guia Politicamente Ofensivo

Por Jorge Cruz

Parece que as distribuidoras brasileiras gostaram tanto da lista do Vertentes do Cinema com Os 10 Filmes mais Homofóbicos da História do Cinema que começaram a procurar em seus arquivos de estreias postergadas obras audiovisuais dignas de serem elencadas naquela matéria. Se o objetivo de “Amor em Jogo” era esse, todos os parabéns são merecidos. Um filme que se revela uma espécie de guia politicamente ofensivo, conseguindo de forma invicta ofender todos os grupos ali representados sem dar qualquer chance para o humor. 

Shushan (Oshri Cohen) é um atacante popular em Israel que se envolve rapidamente com Mirit (Gal Gadot), amante daquele que parece ser o mafioso mais poderoso da localidade. Um mero pedido de desculpas não é aceito e o chefão determina que o protagonista deverá, em entrevista coletiva, contar (ou “assumir” para usar um jargão que encanta os desinformados) que é homossexual. As consequências dele ser o primeiro jogador de futebol fora do padrão heteronormativo da História terá suas consequências, quase todas negativas. Com a ajuda de seu empresário, Shushan tentará enxergar ônus em sua nova condição.

A caricatura é o mote de “Amor em Jogo”: o jogador de futebol alienado, o empresário interesseiro, a “mulher de bandido”, a lésbica sisuda, os torcedores ogros. São sequências infindáveis de representações deturpadas, fazendo a comédia valer a qualquer custo. Uma produção lançada em 2014 em Israel ganhar o circuito comercial brasileiro no final de 2019 diz muita coisa sobre as duas sociedades. Mesmo que se defenda a tese/desculpa da popularidade de Gal Gadot – intérprete da “Mulher Maravilha” há quase três anos – o sarrafo do bom senso anda cada vez mais baixo no país. Se a ofensa travestida de politicamente incorreto se limitava a filmes roteirizados por Danilo Gentilli, agora somos capazes de importar obras como essa.

O longa-metragem só provoca pensamento crítico àqueles que são inteirados na propaganda gay friendly de Israel. Um país que se orgulha de ter uma das maiores paradas de orgulho e conscientização LGBT, porém precisa lidar com casos rotineiros de discriminação. Quase como se um jogador de São Paulo fosse alvo da mesma “piada” ao qual o filme se propõe – e quem acompanha futebol sabe que a mera dúvida acerca disso aconteceu anos atrás com consequências desastrosas para todos os envolvidos. 

Mirit, papel de Gadot, está ali apenas como troféu. O roteiro de Oded Rozen, não satisfeito em colocá-la como interesseira, ainda a transmuta em uma clássica maria-chuteira, antes do amor verdadeiro se revelar na flechada tardia do cupido. Uma das piores caricaturas se revela quando a personagem está usando brincos gigantes com o símbolo da Mercedes-Benz. O único texto da carreira de Rozen que consta registrado é de um filme chamado “Hallelujah”, de 2003, um filme para a TV. Trata-se de outro reflexo da falta de espaço que escritos deploráveis como este tinha anos atrás. O diretor Shay Kanot encontrou melhor sorte e já lançou dois filmes depois desse, que parecem ser comédias adolescentes. Seu trabalho não é tão indigno, eis que abre mão de enquadramentos e formas de representações que poderiam acentuar o desrespeito.

As falhas de representação se estendem até à mãe do protagonista, na única cena em que ela fala com o filho do telefone direto de sua casa na Europa, emulando expressões da comunidade gay para parecer desconstruída. A reiteração de xingamentos, a marketização da questão da sexualidade, crianças como escada de mais piadas verborrágicas, a lista é infinita. Quando não há mais espaço para ofender os estereótipos fundantes do roteiro, há esquetes com duas psicólogas citando Freud para fazer sexo a três, uma publicitária lésbica que abre um livro de Judith Butler no meio de uma discussão e até uma tentativa de stand up específica para “brincar” com judeus. 

Nessa democratização de alvos, não adianta de nada fabricar a regeneração de um protagonista que serviu apenas para ampliar o arsenal de piadas contra inúmeros grupos já marginalizados na nossa sociedade – e na de Israel. Quem espera o dia em que piadas dessa natureza tenham graça por refletir o passado, ou por ser anti sistema, precisa esperar sentado. Estamos séculos distantes de encontrar dignidade a todo e qualquer ser humano. “Amor em Jogo” só não queima mais o filme das políticas sociais de Israel e da carreira de Gal Gadot porque, além de não ser em película, dificilmente encontrará público em sua campanha pelos cinemas. Todavia, é um exemplo assustador de como o conceito de comédia parece reencontrar o caminho do equívoco.

 

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