América Armada

O trópico da violência

Por Vitor Velloso

No Rio de Janeiro, um ex-policial militar agride um manifestante, sobe o Morro da Conceição armado dizendo que irá acabar com o tráfico e se candidata a vereador, e ganha. A dependência encontrou um aparato perfeito, a política de armas da direita, por uma eugenia neoliberal. “América Armada” de Pedro Asbeg e Alice Lanari compreende que o reacionarismo crescente na América Latina desemboca em uma força de opressão, onde os supostos agentes de segurança, do Estado, estão a serviço das classes dominantes. 

Entre Brasil, México e Colômbia o cenário é de uma proximidade funesta. Uma violência desmedida que vitimiza as classes menos enriquecidas e promove uma manutenção da luta constante entre duas ou mais realidades diferentes. O filme é eficaz em trazer o debate à tona e trabalhar as diferentes versões de uma questão cotidiana para os latinos. A montagem busca uma aproximação direta e sintética, acaba fragilizando parte do discurso por não pavimentar um contorno material diante das frentes. Contudo, a abordagem possui méritos notáveis, em especial no segmento brasileiro, onde acompanhamos um personagem que está sempre em campo. 

Em “América Armada” o ponto não é apenas político, mas um ato de sobrevivência em meio ao inferno subdesenvolvido. Contudo, a falta de cadência entre os eixos de seus personagens faz com que o projeto perca um valioso ritmo em diversos momentos. Como dito, o trecho brasileiro é a parte mais interessante do documentário e consegue criar uma linha de práxis que não cede ao burocrático, diferentemente das demais que não conseguem criar uma unidade funcional para o filme. Assim, o barato soa meio desarticulado e frágil em alguns segmentos, ainda que consiga elevar o nível do debate através de suas exposições e registros. 

O longa é de uma importância ímpar para um cenário onde vemos grandes pilares históricos da pátria grande sendo (des)legitimados por uma força reacionária, financiada por capital estrangeiro, que busca manter os grilhões nas lutas de classes latinas. Uma das lutas possíveis contras os movimentos de repressão, são os meios de comunicação alternativos à grande mídia e dominados pela alta burguesia. Do contrário, os próprios embates jornalísticos estarão fadados a simples exposição e não a construção de uma resolução plausível e crível. As estruturas de poder da repressão simbolizam a decadência burguesa em desmantelar as instituições para formalizarem uma dominação terceirizada, por influência de consciência de classe deturpada por uma homologação cultural. “América Armada” compreende as resoluções mas não consegue articular isso em uma estrutura que não consegue se encontrar no meio de tanto material. 

E essa falta de direcionamento em uma materialidade menos programática de uma exposição da realidade, faz com que o documentário projete o panorama sem conseguir reproduzir o que os próprios personagens colocam em prática, uma ação constante que não cessa sem uma resolução. Aqui, não existe a utopia de findar o problema com proposições de embate direto através da mídia, mas sim de uma denúncia constante que consiga minar determinadas possibilidades. É a refrega desleal, onde de um lado armas se amontoam e recebem o aval do Estado de matar e causar terrorismo e do outro, um celular, uma comunidade e força de vontade para enfrentar a mais covarde das repressões, que no Brasil ainda se configura como uma farsa absoluta. 

“América Armada” é um daqueles projetos entre a denúncia e o exercício geográfico que enquadra diferentes paisagens políticas em enfrentamento de classes e interesses da burguesia. Pensar que alguns docentes reacionários ainda sonham com a secção da geografia política e geografia econômica. 

Não há possibilidade de criarmos dois ambientes distintos para uma discussão que está explicitamente na cultura, e como tal, faz parte de uma questão materialista que não há possibilidade de ignorar. O longa caminha nessa direção, mas a urgência de determinadas tomadas acaba embaralhando a ordem da estrutura, com muitos altos e baixos, mas méritos sensíveis. Resta torcer para o brasileiro despender seu tempo para assistir o projeto. Em casa, quando e se possível.

Trailer

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