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Amantes

O cinema envelhece

Por Pedro Mesquita

Amantes

A despeito de sua jovem aparência, o cinema já acumula uma certa idade — a recém anunciada morte de um de seus mais célebres e longevos autores nos serve como prova irrefutável disso. Mas isso é assunto para uma outra hora. Retomemos o foco da discussão: em seus longos anos de vida, o cinema há muito viu o desenvolvimento e a consolidação do grosso de sua produção numa série de gêneros, rumo aos quais a maioria dos filmes tende a gravitar.

Fazer filmes hoje em dia é, de uma maneira ou de outra, lidar com todo esse legado dos gêneros. Entre os cineastas contemporâneos, existem aqueles que afirmam-no — os últimos Nanni Moretti com o melodrama, Christian Petzold com os dramas hitchcockianos… — e existem aqueles que o subvertem, reverenciando-o e negando-o em igual medida — Clint Eastwood com o western, Jean-Luc Godard (ousemos enquadrá-lo uma última vez na categoria dos cineastas contemporâneos) com todo o cinema hollywoodiano…

“Amantes”, o filme sobre o qual devemos discutir aqui, é um filme que parece filiar-se à primeira leva: aquela dos filmes que se ancoram num legado cinematográfico que o precede; que jogam fielmente com as regras do gênero ao qual eles pertencem, sem um pingo de autoconsciência ou distanciamento. No caso deste filme de Nicole Garcia (que já foi atriz em “Meu Tio na América“), tratamos de um típico drama romântico. A sua estrutura narrativa, inclusive, decorre de modo que cada um dos três atos se passa num lugar diferente. No primeiro deles, em Paris, Lisa (Stacy Martin) e Simon (Pierre Niney) são namorados que acabam tendo que se separar após Simon, um traficante, ocasionar a morte de um de seus clientes e fugir do país. Lisa supre esta ausência se aproximando de Léo Redler (Benoît Magimel), um homem bastante rico que, casando-se com Lisa, lhe oferece o conforto e a segurança que Simon não podia oferecer.

A mudança de locação sinaliza um ponto de virada: estamos agora em Madagascar, onde Lisa e Léo passam as férias. E eis que acontece — como não poderia deixar de acontecer, num filme desta natureza… — o inesperado reencontro com Simon, agora um empregado do hotel onde eles estão hospedados. O filme, porém, parece pouco interessado em dramatizar os eventuais dilemas morais de sua protagonista para com a traição: ela logo se entrega aos braços de Simon e, ao longo da sua estadia, o encontra sempre que possível, escondida do marido.

Se “Amantes” parece, até aqui, ter encenado tudo isso de uma maneira excessivamente mecânica, que pouco faz jus ao predicado “romântico”, é porque talvez ele nos reserve uma carta na manga. Ei-la: o próximo ato, que se passa em Genebra, é marcado pelas tentativas mal sucedidas de Lisa de conciliar a presença de ambos homens na sua vida. Simon começa a sugerir cada vez mais intensamente que ela deve separar-se de Léo, mas ela não cede — até brinca, em um certo momento, ecoando o passado do seu amante: “quer que eu o mate?” —, o que o torna crescentemente inquieto e insatisfeito… Essa frase, por mais que aparentemente insignificante, irá conferir ao filme uma certa tensão que até então ele não apresentava: começamos a perceber que existe de fato a possibilidade de Simon matá-lo, e o filme adquire um caráter de suspense que prende o interesse do espectador justo no momento em que ele parecia começar a se dissipar.

No entanto, a resolução das tensões até aqui construídas pelo filme decepciona. Nenhuma das cenas-chave parece ser encenada de modo a conferir à história o devido peso dramático: aquela em que Léo toma conhecimento da traição da mulher; aquela do assassinato, mais ao final… uma abordagem minimamente expressiva, “romântica”, parece ser rechaçada pela diretora em favor de um estilo cínico, distanciado, gélido (não à toa verificamos a predominância da fotografia escurecida e dessaturada). “Amantes”, portanto, joga ao bel-prazer com certas convenções narrativas dos gêneros aos quais solicita empréstimos, mas talvez se esquece de que, para fazê-las funcionar a essa altura do campeonato, deveria menos reproduzi-las mecanicamente e mais jogar com elas, no sentido de conferir-lhes um surplus de vivacidade, de invenção. A sua inclusão naquele primeiro grupo mencionado no começo do texto parece, então, precipitada: o filme de Nicole Garcia está longe da qualidade de um Nanni Moretti ou um Christian Petzold; esses sim, talentosos artesãos dos gêneros com os quais trabalham.

2 Nota do Crítico 5 1

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