Adú

A estrutura do programa

Por Vitor Velloso

Netflix

Adú. O desenho da intercalação narrativa pode ser funcionalidade imediata de dialética entre histórias concomitantes e divergentes em suas trajetórias, se bem aplicada, pode conceber uma síntese histórica, filosófica, social e cinematográfica da própria imagem e de seu objetivo. Quando falha em seu exercício, vira abstração de debate e se descola da própria lógica.

A Netflix vem tentando retomar as rédeas do mercado a partir de seus lançamentos durante o período de pandemia, e assim como a Amazon Prime escorrega mais que acerta.

Como se debater uma construção múltipla sem recorrer aos totens arcaicos e reacionários de Griffith e Padilha? Um revolucionou o cinema e ressuscitou a KKK. O outro retomou a publicidade midiática liberal para o cinema brasileira, trazendo consigo o espírito da violência nacional, mas conseguiu entregar um produto ao povo brasileiro que não dialogava com as neochanchadas da Globo. Os dois extremos, em técnica e tempo, possuem seus nomes marcados.

Se os três parágrafos acima são deslocados de uma objetividade, imagina um longa-metragem que não encontra uma personalidade durante quase duas horas. Ligados pela mesma lógica, a relação política África x Europa, as histórias de “Adú” vão sendo lançadas na tela com a proposta de conceber uma linha temporal e narrativa que consiga sustentar um embasamento político, buscando amparo na questão dos imigrantes.

Dirigido por Salvador Calvo e lançado pela Netflix, o filme é o desenho prosaico da reconciliação moral do europeu com o povo colonizado. A redenção da culpabilidade cristã em ponderações esquemáticas acerca da realidade. Ou seja, diz o óbvio, retrata uma dualidade em meio às ações, sistematiza seus personagens para que sua história possa se desenvolver com o olhar de quem quer apaziguar os ânimos, mas reconhece o problema da violência inerente do ser humano.

Poderíamos aqui ter um projeto inofensivo, mas tudo torna-se enfadonho e burocrático até na tentativa de conciliar as concepções de mundo que norteiam seus personagens. O europeu defensor dos animais é violento, racista e não compreende a miséria, mas tem boas intenções. Os camaroneses reagem de maneira pragmática, sempre impulsiva, com relação as suas atitudes. A sociedade oprime o menino, mas dá espaço para que haja compaixão. O policial assassino é amparado pelo Estado, mas pressionado pela verdade.

Todo o esquema clássico de filme-superação da moral branca está posto na mesa, um arquétipo que agradaria de “Green Book” (2018) a “Acorrentados” (1958). O jogo formal é simples, tomadas gerais que se desencadeiam em close dramáticos para situações absurdas, uma câmera que não ousa entrar na própria encenação, filma como se mantivesse o distanciamento social na prática cinematográfica. É séptico e lava as mãos sempre que pode.

O léxico da dialética do longa é pautado em coisas objetivas, programáticas e datadas. Ainda que esteja ali para debater o problema da imigração com a vertente política dos europeus, se solidariza com a dificuldade dos camaroneses. Mas nessa dualidade, mantém toda a estrutura já pensada pela política europeia de segregação das duas realidades, seja isolando-os em um gueto, ou aniquilando, estrangulando, agredindo. Seja imigrante ou cidadão do país, o sufocamento das políticas públicas, com aval da sociedade civil, mira sempre o silêncio dos oprimidos. Jerônimo é calado em “Terra em Transe” (1967), George Floyd é assassinado em 2020 e no mesmo ano uma mulher negra é pisoteada no pescoço por um policial militar, o soldado João Paulo Servato, em São Paulo.

O retrato da política da violência, não é dado em “Adú”, pois a esperança permeia todos os meandros da narrativa, pois crê cegamente, como uma fé tola, e mal caráter, que a redenção e a paz aguarda a todos, mas ignora que no subdesenvolvimento, promovido pelos mesmos brancos que violentam as liberdades dos camaroneses, a luta é diária, constante, incessante, não apenas por voz, direitos, mas por comida.

Salvador Calvo acredita que retratar a ignorância da realidade, é salvaguardar a resposta imediata, é redimir os erros. Mostra o homem branco como violento, mas o insere em situações adversas, com amparo de instituições, com deveres acima de suas ações. Com isso, nos permite pensar na culpa como algo superior as ações individuais. Uma atitude de puro cinismo.

O menino que interpreta Adú é carismático, sendo contraponto para a fotografia estetizante da violência. Mas o título tenta comprar no carisma, porém revela que o protagonismo possui diferentes faces. Salvador Calvo pode ter boas intenções na vida, mas seu filme dialoga com a toxicidade do drama fácil. Tenta forçar o choro e arranca uma pressão alta de hipocrisia exacerbada e completamente bagunçado. E acredita que o final não otimista, revela a realidade que está submissa à ótica espanhola, quando na verdade é síntese de um resumo programático e mercadológico.

Trailer

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