Adoráveis Mulheres

Mulherzinhas só na literatura

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

Há uma máxima de que o filme nunca estará à altura de um livro. Na maioria das vezes, essa elucubração ganha contornos de verdade absoluta, principalmente se analisarmos que palavras e imagens andam juntas e ao mesmo tempo distantes. Talvez porque quando o diretor quer adaptar uma obra literária a cinema procura a tradução literal, imprimindo um tom mais fiel, esquecendo-se de que na prática, um longa-metragem precisa ser livre para existir. “Adoráveis Mulheres” repete essa padronização hollywoodiana a fim de se manter na zona de conforto e de conseguir uma indicação ao Oscar.

Dirigido pela eterna “Frances Ha”, Greta Gerwig (de “Lady Bird – A Hora de Voar”), “Adoráveis Mulheres” baseia-se no primeiro livro da saga “Mulherzinhas” (traduzido do “Little Women: or Meg, Jo, Beth and Amy”, de 1868, expressão que simboliza “mulheres em processo de se libertar de um mundo binário opressivamente machista”) da escritora norte-americana Louisa May Alcott, que era transcendentalista, abolicionista, feminista, se dedicou a literatura infantil (e a “escrever histórias felizes” para “sobreviver”, ainda que com sua ininterrupta vertigem crônica).

“Adoráveis Mulheres” tende a nascer como um conto de empoderamento feminino, não só por ser dirigido por um mulher e/ou pautar sua trama majoritariamente com personagens femininas, mas sim por desmistificá-las com a humanização das intrínsecas características definidoras (e condicionadas) do imaginário popular a cerca desses seres tratadas como “vulneráveis” e sem “sufrágio”. O filme aqui quer respeitar ao máximo a ambiência do livro e assim acaba por torná-lo ingênuo em suas questões adulteradas e adequação importada daquela época com elementos mais pop de nossa contemporaneidade.

O longa-metragem busca editar a nostalgia do passado com a realidade ficcional do presente, utilizando-se de uma narrativa não linear em que intercala digressões, sonhos, projeções, memórias alteradas pela esperança incondicional da mente (que sempre aumenta um ponto). É um filme que abraça a filosofia kantiana por desenhar o tempo narrativo entre o físico palpável e o empírico etéreo, moldando essas personagens de fantasia realista com o construtivismo de uma consciência intuitiva, que transcende a ordem social e gera infinitas possibilidades do ser e agir, existindo ao mesmo tempo como ser humano, indivíduo social e um espelho refletivo dos dois.

“Adoráveis Mulheres” pode ser considerado um típico filme de época sobre a luta de uma mulher que pede a um homem redator que publique seus artigos sem precisar “dormir com ele”. É uma obra que estimula a desconstrução das regras impostas às mulheres, como por exemplo a de que nas histórias é obrigatório um final feliz. “Curto, picante e a mulher tem que casar no final”, “ensina-se”. Nossa personagem principal entende suas limitações e a condição em que está, sabendo que precisa de tempo, força, coragem e muito “peito” para dessexualizar o olhar alheio.

Como já foi dito, este filme é um produto que visa prêmios, então há a necessidade de se seguir características comuns já uniformizada, como suavizar o drama e mascarar a imagem com a estética de uma elegante fotografia, cuja câmera passeia próxima nos inserindo mais no convite à intimidade. Só que Greta consegue transcender essa padronização com detalhes pontuais. Um deles, a emoção que se aprofunda pelo tom espirituoso, não excessivamente sensível e que conjuga de forma econômica e sutil as cenas sentimentais. Até mesmo uma possível referência cinematográfica a “Titanic”, de James Cameron, em que a dança livre e libertária lembra a da terceira classe do navio que afundou.

“Adoráveis Mulheres” caminha entre limites tênues de emoções. Deve ter sido um trabalho exaustivo de impedir que o muito açúcar o chá (controlando o melodrama inerente ao gênero escolhido). Aqui, brancos e negros convive juntos e igualitários. Cada integrante da família conserva o classicismo maniqueísta, impondo valores morais acima de todas as coisas e mantendo o altruísmo de ajudar sem olhar a quem. É um filme que preza por manter os princípios éticos do civismo, enaltecendo os deveres fundamentais a fim do bem-estar e harmonia. E acima de tudo uma mensagem a favor da família, que acontece nas urgências, dificuldades, tristezas, alegrias, lutos, sofrimentos e por reações infantis, impulsivas e/ou por inocentes vinganças-picuinhas (porém entendidas como uma forma de expor incompreensões desconfortáveis).

O longa-metragem navega por uma estrutura de “Razão e Sensibilidade” com “Orgulho e Preconceito” com toques moderninhos a la Sofia Coppola em “As Virgens Suicidas”. Contudo, aqui, em “Adoráveis Mulheres”, seu final, uma grande ficcional da própria vida retratada, “ganha” opções de reconstituição existencial, corroborando a “perfeição” esperada do término feliz de personagens tratadas mais como marionetes sociais que humanas errantes em processo de evolução comportamental. É também um filme de atrizes, de novatas a veteranas, que brilham em seus compartilhados e verborrágicos instantes-monólogos de um caos organizado.

 

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