Abe

Tempero simples e padrão

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Nos primeiros minutos de projeção, “Abe” já deixa claro que estamos vendo um produto com claras intenções mercadológicas. Com sua linha pop e desengonçada, compreendendo elementos tecnológicos contemporâneos em sua lógica formal, o filme demonstra sua influência de longas de superação, já na fotografia, mas define seu público de maneira direta, adultos que pagaram ingresso para se emocionar com a história do protagonista que dá nome ao título, Abe (Noah Schnapp) e sua capacidade de driblar as adversidades de sua família, dividida entre palestinos de origem muçulmana e judeus de origem Israelense, através da culinária e de uma proposição de fusão entre alimentos de culturas diferentes, contando com a ajuda direta de Chico (Seu Jorge) para unir os dois lados com a culinária.

Poucas coisas aqui funcionam de maneira sólida, durante a maior parte do tempo, o caráter televisivo da obra se padroniza com as mediocridades de Hollywood, sendo formalmente desinteressante em essência, por sair de uma fôrma, e dramaticamente previsível. As tentativas de se ampliar os recursos da sétima arte com uma linguagem de internet, despejando informação na tela, só sintetiza a fragilidade da produção. Não pelo uso em si, mas por não justificar sua verve juvenil, tola que seja, com grande parte do conteúdo que decide cruzar de maneira superficial. A quantidade de discussões possíveis acerca da trama são diversas, mas a construção que é projetada, revela o caráter unilateral das relações norte-americanas/brasileiras com a indústria em si. Essa aceitação de um padrão pré-definido e uma entrega pueril das inclinações que precisa fazer para driblar questões políticas. O contorno destas problemáticas é mais que compreensível, por ser um assunto exterior à produção do longa, mas as soluções para isso são no mínimo canhestras.

Começando pela inserção de um aspecto latino americano, a brasilidade, como um mediador dessa situação do menino. Há tamanho equívoco nessa leitura imediata. O diretor, Fernando Gronstein Andrade (Encarcerados, Na Quebrada e Carcereiros – O filme), brasileiro, volta a se aproximar desta estética televisiva e unilateral. Aqui, compõe de maneira quase caricata um universo lúdico de uma criança apaixonada por comida e cozinhar, a verve quase fantasiosa adicionaria muito ao longa se este compreendesse como concretizar isso de maneira sólida e consciente, mas o faz com cores vivas e uma exposição assombrosa dos diálogos. Essa é a maneira mais frágil de situar a condição lúdica possível. Claramente o caminho mais óbvio é tomado por questões comerciais e pela facilidade. Os esforços poderiam ser maiores em levar essa tentativa à sério.

Além disso, a dramaturgia se mantém no limbo da mediocridade de seguir todos os clichês possíveis de uma trama de amadurecimento com mensagem de vida por trás, situar a narrativa do Brooklyn deixa o exercício quase cômico. Os estereótipos de “Abe” surgem na tela com uma toxicidade cultural imensa, claramente o brasileiro presente lá, é o baiano que faz acarajé em meio à uma feira pública. É claro para o espectador que a produção nacional só pincela com um verniz nos créditos e na aparição de Seu Jorge, porque tudo é estruturado de maneira a conquistar o público estrangeiro. Não se trata de um filme que se preocupa na conquista de uma regionalização forte do produto, pelo contrário, busca sempre que possível aproximar as duas culturas. E a diferenciação dada aqui beira o ofensivo, pois Chico é um personagem frágil em essência. Ora é assim, ora assado. Sua linha dramática parece respeitar o tempo da montagem e de uma padronização de empatia do público com o ator, parece estar sempre contando o tempo de tela para que a próxima cena seja jogada.

O maquinário industrial conseguiu usurpar não só nossa cultura e público, como aparentemente uma produção que se inclina ao mesmo. Pior que isso, é reconhecer nessa simbiose uma saída de paz em nome da arte e da expressão. Ora, uma parte da elite brasileira sempre elevou o ego da Trumpland e promove constantemente o consumo e produção em massa de produtos que se voltem aos mesmos, mas decidir se curvar desta maneira é rude com o próprio espectador.

 

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