A Vida de Alice

Quem Sabe de Mim Sou Eu

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

Quase todo ano chega aos cinemas algum filme protagonizado por ou com Alice em seu título. A brincadeira quase automática é tentar descobrir se há proposital referência à clássica obra de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”. Em “A Vida de Alice“, em cartaz na Mostra Expectativa do Festival do Rio de 2019, a diretora e roteirista Josephine Mackerras não precisa perder muito tempo entregando as motivações do nome da personagem vivida por Emilie Piponnier.

O longo prólogo da obra nos apresenta a tradicional família de comercial de margarina Ferrand. Uma classe média branca com seus amigos igualmente perfeitos e relacionamentos saudáveis. Envolvida nessa redoma de vidro, em um apartamento que os pais deram para Alice, ela se permite fechar os olhos ao alcoolismo que começa a tomar conta do marido François (Martin Swabey), que substitui seu café-da-manhã por um dose dupla de uísque. O mundo fantasioso de Alice começa a se desfazer quando o homem some de casa, deixando para trás esposa, filho e uma dívida de quase cem mil euros. Na verdade, enquanto ele vendia sonhos na casa que sequer era seu patrimônio adquirido, François pilhava o banco contraindo empréstimos sequenciais por meses. Ele gastava tudo com acompanhantes de luxo, o que a protagonista descobre ao revirar os papéis na intocável mesa de trabalho do outrora senhor daquelas terras.

Para evitar que o apartamento vá à leilão, Alice se dispõe a trabalhar na mesma agência de acompanhantes que tinha no marido um cliente contumaz. A partir daí toda a idealização típica das sonhadoras personagens que carregam esse nome se esfarela. Ela aumenta seu campo de observação, sua rede de contatos e aos poucos vai chegando às suas próprias conclusões sobre ser mulher e principalmente a relação com a maternidade. Jules Ferrand (Jules Mackerras), o filho de Alice, surge em várias oportunidades como um obstáculo a ser superado para que o plano de recuperação da mãe se mostre eficiente. Além disso, Mackerras, em seu primeiro longa-metragem nas funções de diretora e roteirista, ensaia abordar a ansiedade e esgotamento causados pelo excesso de demandas de trabalho, em um mundo onde nada pode ser negado, sob o risco de ter seu nome jogado no vento.

O que mais chama a atenção em “A Vida de Alice” é como o humor é utilizado. Não há um entretenimento hipócrita nem o uso da comicidade apenas para aplicar o juízo de valor desconstruído. Pelo contrário, o texto brinca com as possibilidades. Há uma cena muito parecida com a de “História de um Casamento“, obra recentemente lançada pelo serviço de streaming Netflix. Na sequência, a mãe de Alice questiona por telefone onde a filha “errou” e os motivos que levariam o genro a abandonar a casa. Uma dose cavalar de machismo, tratada com uma fina ironia muito menos forçada. Os momentos em que a protagonista tenta se adaptar ao novo trabalho, estranhando o contato com homens desconhecidos, corriam o risco de descambar para uma objetificação desnecessária ou para uma levada que não conseguisse equilibrar o cômico com o a crítica. Pois são justamente nesses momentos que a obra se mostra mais divertida.

Porém, como diria Stephen King, “às vezes eles voltam”. O roteiro de Mackerras se permite ampliar o período em que a história é contada resgatando o personagem do marido arrependido. As quase duas horas de projeção permitem que o contraponto da visão masculina não seja ignorado. Essa crise existencial internalizada pelos homens que esperam uma condescendência geralmente concedida pela sociedade explode em uma situação extrema. Longe de querer defender o personagem, “A Vida de Alice” segue seu fluxo como um longa-metragem que tenta não se perder em uma visão deturpada da realidade. Por isso, no ato final, ele acaba criando um blefe incrível, uma jogada de pôquer que gera expetativas, frustrações e surpresas no público.

É interessante ter contato com obras do cinema francês (país com um moralismo e sexismo muito característico) que optam por não romantizar a traição. Fica a torcida para que Josephine Mackerras não seja engolida por um mercado cinematográfico que gosta de se modernizar sem mudar suas estruturas basilares, tal qual Hollywood. “A Vida de Alice” é uma obra que insere temas e desenvolve os elementos apresentados com muita fluidez, tratando desde a vida de acompanhantes de luxo até as dificuldades de superação de um relacionamento abusivo. Mesmo que caia em um melodrama que soe um pouco exagerado na parte final, o que exige da atriz Emilie Piponnier a reconfiguração de sua personagem, o todo se destaca por não deixar as oportunidades que a comédia situacional dá de colocar bons assuntos na mesa serem perdidas.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *