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A Torre

Vício e Vertigem

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

A Torre

Enquanto algumas obras estão preocupadas em conquistar seu público através de uma dramaturgia que cativa o espectador , “A Torre” de Sérgio Borges busca mergulhar o mesmo em uma experiência consciente das fugas dos padrões cinematográficos que estão regendo o cinema nacional contemporâneo.

Através de uma narrativa lenta que se constrói com uma liturgia própria, o longa-metragem ganha contornos herméticos enquanto situa seu espaço em probabilidades diversas do espaço-tempo, prolongando a “misancene” (versão brasileira Herbert Richers que o diretor Glauber Rocha adorava redefinir) com uma verve que recusa problemáticas políticas na maneira que se mostra. Porém, acaba caindo na fórmula da estranheza e se torna pouco original ao afastar o espectador de qualquer ligação catártica com a obra, resumindo a mesma em questões pontuais do protagonista e as afetividade do mesmo.

E se em trabalhos do Malick e Bartas, a narrativa se desmonta na poética da forma, aqui a linguagem parece querer atingir um nicho específico da cinefilia brasileira, e ainda que o faça, com atuações expressivas, não se justifica (a palavra é mais grosseira que deveria) enquanto projeto autoral de quem busca determinadas reflexões com o drama que se projeta na tela. E tudo isso acaba diluindo na sensatez à uma virilidade que se mostra pouco honesta em sua construção que atravessa momentos quase alucinógenos da fragmentação dessa proposta.

Assim, tudo se torna mais burocrático que deveria e o exercício de assistir “A Torre” vira um desafio que se revela um desafio especial, mas não satisfatório. Não à toa, os sons na sala de cinema revelavam o interesse geral por aquela dramatização, roncos e o silêncio quase mórbido de uma sessão que implorava o fim do filme, pois o tédio, dominante, acaba vencendo até o que os créditos assumam a projeção e revele que o tormento se encerrou.

Sem alguma intenção além da desenvoltura vertiginosa de compilar um amontoado de estranhezas, afim de concentrar os esforços em catapultar a experiência para essa fluidez narrativa, o projeto se esvazia em suas possibilidades e pluralidade, circulando o próprio ego, enquanto persegue um vazio que nunca é preenchido, com tendência ao pior após a sessão. Conforme se leva o processo de digerir as possíveis nuances da obra, toda a questão se torna pueril com o passar do tempo, não por falta de substância, mas pelo interesse que se perde através dessa monotonia burocrática.

É uma problemática comum no cinema nacional que busca essa concretização da forma enquanto uma narrativa que parece girar em um eixo sem saída, mas que aparenta levar todos seus esforços para um beco sem saída. Essa questão está se tornando cada vez mais frequente nas produções nacionais e vem expondo uma fraqueza do cinema independente em buscar uma reverência de uma linguagem europeia, enquanto passa o verniz brasileiro em algumas temáticas e unifica suas passagens narrativas em possibilidades diversas.

Sérgio é hábil em construir sua encenação em torno dessa vertigem constante do protagonista, além de buscar uma visceralidade em planos específicos a partir do teor sexual de algumas sequências. Toda essa verve acaba sendo desperdiçada com a progressão, já que os caminhos parecem nunca se encontrar, nem mesmo para o filme, que se situa no limite da forma e da narrativa sem saber ao que recorrer.

“A Torre” é fruto de uma síndrome crescente no Brasil, que acaba afetando uma setor da cinefilia e da produção cinematográfica. Não corresponde a qualidade de “O céu sobre os Ombros”, mas consegue ao menos ser eficaz em provar mais uma vez a qualidade do diretor enquanto encenador. Logo, mostra que ainda vale a pena seguir a carreira do cineasta nos próximos projetos que irá realizar. Mas acaba sendo um conceito pouco original e já batido de um cinema independente que gira em círculos buscando a auto referência o tempo inteiro.

Nesse jogo de egos e fragilidades criativas, o filme se mostra mais interessado em construir uma unidade própria que funciona como uma experiência imediata, mas que desafia seu público a acompanhar o transe narrativo que é proposto, porém perde muita força no caminho e vai ser abandonado com relativa facilidade por quem decide embarcar nessa viagem lírica.

3 Nota do Crítico 5 1

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