A Terra Negra dos Kawa

Ao trópico voltaremos

Por Vitor Velloso

Festival do Rio 2018

A Terra Negra dos Kawa

Existe uma vertente do cinema brasileiro contemporâneo que procura aproximar a estética dos projetos de um registro quase prosaico. Em alguma medida, essa forma de realização possui algumas boas sacadas, especialmente para criar uma determinada tensão entre o antigo debate, majoritariamente acadêmico, entre ficção e documentário, especialmente por conseguir uma espécie de naturalização de uma cena que poderia ser espetacularizada em um contexto distinto. 

Contudo, “A Terra Negra dos Kawa”, de Sergio Andrade, soa como uma flexão de determinados fetiches da sociedade em termos culturais e simbólicos dos povos originários, não só por a partir da estética de um registro quase cru, mas por não conseguir se encontrar em quase cento e quarenta minutos. O maior problema do filme não é a sua temática em si, pelo contrário, a premissa possui uma série de elementos que poderiam servir para debate, desde a clara apropriação do sagrado, até uma reflexão de pontes históricas sociais brasileiras. A grande questão aqui é onde termina a ironia e onde começa o fetiche propriamente dito, pois nessa relação dialética as coisas ficam tão confusas que sobra espaço para racionalizar ondas eletromagnéticas, psicotrópicos, nudez, terra, extensos planos e desconexão absoluta entre cenas. É como uma síntese de diversos absurdos, onde as coisas caminham para direções que nem o próprio diretor parece ter certeza. 

Essa falta de algum argumento conciso para vermos pessoas excitadas com os efeitos da terra e algumas contradições que essa troca cultural gera na narrativa, não pode ser resumida apenas na conexão corpo x terra, especialmente na cultura dos povos originários, nem mesmo nesse frenesi que os brancos se encontram ao consumir a substância e descobrir que “agora entendeu tudo”, “eu sou eu, mas não sou eu” etc. Mas se a obra não pode ser resumida a isso, o que sobra? De discussão, muito pouco, com exceção do retrato de cientistas que parecem universitários após a primeira experiência com substâncias ilícitas e longos planos ritualísticos, “A Terra Negra dos Kawa” se perde na própria ideia de imersão em universo que nunca é palpável ou expresso em palavras. 

Se essa percepção fica clara para o espectador na forma como as cenas são construídas e arranjadas em sequência, a maior culpa desse sentimento está nas escolhas dos dispositivos que movem essa narrativa, constituídos de gatilhos frágeis, muitas vezes fúteis e desconexos. Não por acaso, o grande adjetivo que define o filme é “prolixo”. Pois além de disperso e sem ritmo, as incontáveis voltas que o projeto promove são desinteressantes, geralmente repetindo um conteúdo que já havia sido transmitido em outras situações. Ou seja, o longa não é acessível, trabalha com exotismos questionáveis deste intercâmbio cultural (ainda que com algum posicionamento claro) e se arrasta de forma desnecessária, podendo facilmente ser um curta ou média-metragem. 

Porém, “A Terra Negra dos Kawa” trabalha com um estereótipo, que apesar de batido, funciona bem durante a projeção: o branco que está ali usufruindo de uma questão sagrada para os povos originários, com interesses claros, sejam mercadológicos ou de prazeres que não acessam de outras formas, e que parece tão fissurado em seguir neste “desejo proibido”, que passa a se assemelhar lentamente por uma representação que já vimos, ou ouvimos, de pessoas que procuram experiências distintas em outras culturas. 

Não cabe aqui fazer juízo de valor sobre isso, não do aspecto de vista moral, mas sem dúvida a questão que pode permear alguns espectadores é: onde termina a ironia e começa o exotismo? 

Isso porque, a escolha por uma linguagem crua, quase que mal acabada, com planos fixos de longa duração e uma observação diletante desses arranjos sociais, históricos e culturais, implica na percepção de um trabalho que soa incompleto, mal finalizado e sem uma argamassa que consiga dar conta de suas próprias temáticas. “A Terra Negra dos Kawa” acaba se fixando no campo dos projetos que assumem uma perspectiva com propósitos estéticos esvaziados por uma falta de organização explícita. Não é por acaso que campos eletromagnéticos, analogias tecnológicas, cenas ritualísticas, futuro e passado sem uma base concreta de ligação, forçam tantas pessoas a categorizar esses filmes como um “pós- com propósito egocêntrico”. Talvez os psicotrópicos de “Bacurau” (2019) e as pautas tecnológicas dos anos 2000 se esgotaram e as referências estão se dispersando de forma a criar essas reflexões metafóricas que só arranham uma superfície, seja qual for.

1 Nota do Crítico 5 1

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