A princesa de Elymia

Ousadia e acerto em dissonância

Por Vitor Velloso

“A princesa de Elymia” é um longa de animação brasileiro, é ousado em sua proposta megalomaníaca e repleto de boas intenções em sua construção. Mirando aspectos líricos e sociais, buscando sua construção através de seus cenários arquitetados a partir de concepções pré-concebidas da realidade ou de outras narrativas. Neste aspecto consegue ser didático na própria abordagem que a produção almejava, mas acaba caindo em todas armadilhas possíveis durante o processo.

Surgindo com uma estrutura clichê, a história se desenvolve em torno do arquétipo de uma jornada de herói, aqui heroína, e se utiliza do peso do âmbito social da protagonista como âncora para escolhas e diretrizes de benfeitoria com empatia generalizada. Porém, a determinação destes traços é aplicada por um viés duvidoso, ao assumir uma visão burguesa da sociedade. Se inclinando constantemente ao fluxo de destaque individual, o longa se estrutura de maneira a priorizar feitos isolados, logo, passa a compactuar com uma proposição que se distancia gravemente da realidade que diz representar no início da projeção.

A montagem parece glorificar a beleza do Rio de Janeiro, enquanto utiliza fade e uma música gloriosa que enaltece a geografia da cidade, sendo uni som em sua leitura da desigualdade presente. Acreditando que com um pulo de um corredor da favela pro Cristo Redentor é o suficiente para demonstrar a crítica da incorporação dos diferentes “cartões postais” da cidade, em uma simbiose enaltecida por quem não está inserido no plano, mas sim do outro lado. Além disso, a transição de planos demonstra a leitura frágil e superficial de uma problemática social que é secular em nosso solo.

Ainda que não seja o único momento que vai atrás de uma pauta social no projeto, todas as tentativas arranham a superfície e se mantém no plano comum, quase em consonância com a mídia volátil. E se a estrutura não fosse problemática o suficiente, o roteiro insiste em uma narrativa pasteurizada de diversos filmes estrangeiros. Com uma jornada por um reino ameaçado, onde a salvação se encontra na figura central de alguém que entende aquela questão na própria pele.

E por mais que se esforce em entregar um olhar idílico de uma realidade que necessita de uma fuga direta, ou mesmo de uma jornada pessoal através de demônios diários que assombram a vida da personagem, não se distancia da história colonizada. Sendo incapaz de reconhecer em si, uma verve propriamente nacional, realizando concessões de péssimo gosto aqui e acolá, em uma postura propriamente distante do discurso que pretende. Mesmo que seja no design de seus cenários ou personagens.

“A princesa de Elymia” possui um trabalho considerável, sendo claramente detalhada em alguns breves momentos, no cabelo, na roupa etc. Mas está muito mal otimizado, dando a impressão de trabalho inacabado. Por questões de verba ou não, dá a impressão ao espectador de um produto que se encontra pela metade. E isto é bastante frustrante durante a projeção, pois a megalomania presente na trama, poderia ser reduzida a fim de otimizar a qualidade gráfica. Mesmo que significasse a fragmentação do longa.

A dublagem é um problema grave, não sentimos o peso das falas, tudo aparenta estar fora de sua emoção original e o recurso de esconder a boca da animação, para poupar a sincronização é utilizado com tanta frequência que se torna óbvio. Os diálogos expositivos não ajudam em nada, quebrando completamente a experiência, por a tornar óbvia demais. E a movimentação dos lábios tira o foco de qualquer pessoa. Texturas flicando, tecidos com uma proposta gráfica dissonante de todo o resto.

Todos os problemas técnicos poderiam ser relevados se o roteiro fosse minimamente instigante, menos clichê e possuísse uma construção mais justa com sua proposta primária.

Contudo, é importante ressaltar a coragem do projeto e a responsabilidade assumida aqui, ainda que não tenha funcionado, devemos. reconhecer o produto como um incentivo à animação nacional. Logo, é importante que haja espectadores nas salas de cinema para acompanhar o que vem sendo produzido em solo nacional. Infelizmente sabemos do possível fracasso comercial e já vemos isso na quantidade de salas que estão exibindo “A princesa de Elymia”. No aguardo para novas produções.

 

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