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A ponte de bambu

Resposta à conspiração contemporânea

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

Com o crescente discurso anti-china e anti-comunista no Brasil contemporâneo, fica claro que a retomada de um processo reacionário e ultrapassado ganha força na tônica ufanista de quinta categoria. Os argumentos são atrocidades múltiplas. Os mesmos que elevam seus discursos a isto, recorrem à venda compulsória do próprio país. O neoliberalismo se uniu a lógica fascista. Mas é claro, que os chineses são os culpados de tudo isso. Não? 

“A Ponte de Bambu” de Marcelo Machado é um documentário que chega em um momento importante da História brasileira, pois desconstrói a imagem demente construída pelos reacionários de plantão. Essa classe peçonhenta que quer o poder para si, entendendo que a dominância deve vir de um apoio de base, pois o controle econômico eles já possuem. Aqui, os burgueses e os militares se uniram em torno das conspirações alucinadas do brasileiro-norte-americano auto intitulado filósofo. A gangrena é tamanha, que a cada novo texto ou vídeo que a internet abriga, é possível indagar a veracidade das falas, pois o nível descerebrado parece avançar sempre na direção mais tenebrosa da coisa. E repito a fala de uma crítica anterior: Hoje, precisamos lembrar que a terra é redonda. 

O filme de Marcelo Machado vem para compor um retrato íntimo de uma família que esteve presente na China durante a década de 50, 60 e 70. Jayme Martins torna-se o principal interlocutor da narrativa. Aqui há um movimento interessante que a montagem causa, as diferentes perspectivas da relação com a Revolução Chinesa, em especial Mao, e como as compreensões particulares são distintas um dos outros. Não há necessariamente uma unidade de pensamento aqui, cada um expõe sua visão dos acontecimentos, mas a tônica geral é lembrarmos que o materialismo dialético é a chave para a compreensão dos desdobramentos políticos que ocorreram ao longo dos anos. E relacionar as mudanças na postura econômica e internacional como um progresso inevitável do desenvolvimento Chinês. Não tratar de maneira unilateral como Zizek, que chama o país de “aberração política”. 

O documentário apresenta de maneira clara que o tom “híbrido” que norteia essa visão em torno da relação comunismo x capitalismo, trata-se de um erro da compreensão materialista dessas nuances econômicas e que a economia de mercado nada tem haver com o capitalismo, ao menos em seu imediatismo e ideologia. Já por isso, a importância do filme ganha dinâmica no contexto, mas suas tentativas de tratar o olhar intimista da família no meio dessa dimensão absolutamente histórica que estavam convivendo, acaba falhando. E isso ocorre, em especial, por enclausurar demais seus objetos de debate no longa, pois torna sempre o olhar ao privado, à particularidade dessa política, o que difere absolutamente da postura de seus protagonistas diante da Revolução, como a ideia de mesma. 

E por isso, duas questões saltam de “A ponte de bambu”, a primeira diz respeito à seu ritmo, que passa a oscilar a partir da segunda metade, pois cria paralelos demais em sua discussão, e as coisas vão se distanciando o eixo principal. Não à toa, o assunto se torna uma abrangência que não ganha o tom devido diante da História da China e vai perdendo sua base material. A segunda, são os atravessamentos de discussão que não incorporam a crítica possível em seu objeto, caso das aparições, em arquivo, de Suplicy. São perdas absolutas na amplitude dessa análise. E são muitos os casos que são compilados em “curiosidades” sem uma objetividade incisiva em suas necessidades de conquista nos amplos debates. Conforme a exibição vai avançando, o espectador se vê assistindo múltiplas vertentes do mesmo assunto que vão sendo jogadas de lado, apagadas e nada chega à um ponto concreto onde há espaço para a crítica, assim, mesmo que parte de sua frente seja em uma coluna do materialismo dialético, a análise crítica vai dando lugar à nostalgia e o afeto. E está claro que o foco do filme não é tratar de uma história contemporânea da China, nem do Partido, muito menos de sua base da Revolução, mas a falta de espaço para um reverb mais acentuado dessas nuances torna o exercício um pouco burocrático demais. 

“A ponte de bambu” é um interessante projeto que perde força com sua progressão e reforça a gangrena intelectual que o Brasil vive, em todos os setores. Mas parte da base de material de arquivos se torna pouco pragmática em seus usos. Uma pena pois alguns de seus depoimentos são absolutamente contundentes e necessários para construirmos uma verdade em torno das relações midiáticas e políticas do mundo contemporâneo. 

Trailer

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