A Noite Amarela

Estudo de gênero cinematográfico

Por Vitor Velloso

“A noite Amarela” de Ramon Porto Mota (um dos diretores de “O Nó do Diabo” e produtor de “Batguano“), integrante da seleção do CineBH 2019, é um projeto bastante peculiar no cinema brasileiro, pois busca abarcar tantas nuances diferentes à sua estrutura narrativa que é fácil entender a ruptura que encontrará com parte do público.

O flerte inicial que já dá o tom da ficção científica e a trilha estridente e sintética lembra a atmosfera de “Sob a Pele”, porém após alguns minutos percebemos que a intenção é quase oposta, já que há espaço à comédia, em uma construção que se permite transar com algum grau de realismo na proposição da misancene. A partir dessa naturalidade das ações das personagens, no contexto da trama, elementos surgem com o intuito de pressionar o espectador contra elementos que não são fantásticos, mas sim de ordem metafísica.

Se brutalidade não é uma verve, a sutileza muito menos. Personagens estranhos atravessam a história, sons esquisitos emanam do lugar e visões vertiginosas abalam os jovens. Aqui, a câmera vai mirar a janela da alma de cada um, tentando arrancar o sentimento confuso que todos possuem. Isso é causado através dos arquétipos pré-estabelecidos do gênero de horror, que o filme assume com constância em sua construção. Neste sentido os pontos de partida estão longe de serem originais, já que o jogo clássico está aqui, jovens estereotipados indo à uma residência em um local inóspito. A diferença do projeto está no tom que assume no gênero e na abordagem formal que acentua um curioso grau de fantasia temporal da narrativa.

E este tratamento do tempo, tão necessário no que o diretor propõe, só funciona pela compreensão daquele espaço físico como uma geografia que guia a trama através de um mistério, pouco interessante, que é jogado sem cuidado algum, mas proporciona o absurdo que o público está diante. E esta é uma das características do longa, pois ele brinca com decisões que ninguém tomaria, como concretizar longas cenas de comédia com um tom diferente, um ritmo particular e um tempo que funciona como virtude isolada. Logo, há dois blocos de unidade presentes aqui, que possui suas ligações nas questões da dramaturgia em si.

Mas todo esse tratamento não esconde os vales dramáticos que estão na trama, que torna todos os personagens meros objetos da história, mas faz “Noite” perder muita força em suas tentativas de tencionar as cenas em torno do terror. Pois aqui, o prosaico vira experiência à parte de um grupo de jovens que querem aproveitar um momento de descontração. O clichê e o cotidiano leva os diálogos a territórios desconfortáveis para o espectador, pois o grau das falas expositivas demonstra uma grave inabilidade com a flexibilização de algumas escolhas do diretor, que é hábil em compôr uma encenação que concilia a tensão que deseja criar, com a regionalização do projeto. Desta maneira é fácil ver a identidade do filme, ainda que esteja tomado de clichês.

“A Noite Amarela” inicia a jornada de gênero com um conflito simples, que não possui resolução aparente, pelo contrário, cerca seus personagens ao extremo, em busca de um enclausuramento espaço-temporal. Neste sentido é bastante eficiente, pois se concretiza como uma espiral que sacramenta a “multilaterização” dos problemas diretos. O que atrapalha o fluxo é sua dicotomia da diretriz do gênero com sua construção, que perde muita força ao ficar impondo situações cômicas e deslocadas do momento de partida da problemática, retornando à momentos que parecem estar lá como construção dramática mas prejudica o ritmo, pois o vai e vem temporal inflige uma lógica pouco honesta com a continuidade de tensão que busca.

Ao adentrarmos nesta questão de atmosfera, há inconsistências também, já que poucas cenas conseguem transmitir o real perigo da situação. O que não tira o mérito da direção, pois a intenção não era de moldar um arquétipo de sensação, mas entender a relação de seus elementos com o público, como as cenas espelhadas, os diálogos cômicos e as sobreposições, tudo isso distancia o projeto do senso comum.

“A Noite Amarela” é um longa peculiar que merece a chance do público quando chegar em cartaz nos cinemas. Mas sem esperar originalidade de seus recursos, aliás “Coherence” tem seis anos já.

 

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