A Mulher Na Janela

Maneirismos e bocejos

Por Vitor Velloso

Netflix

Joe Wright, um cineasta que nunca convenceu, retorna às telas para apresentar “A Mulher na Janela” seu projeto mais maneirista, que já angariou alguns adeptos, futuros fiéis. O esquema funciona a partir dos dispositivos formais que buscam assimilar as questões psicológicas da protagonista na própria linguagem, tentando transformar a nossa realidade mais próxima a dela. Essas artificialidades provocam brilho nos olhos de alguns entusiastas de um maniqueísmo mais vulgar das proposições esquemáticas, mas reflete uma necessidade de tentar encontrar o meio termo entre a tradição e esse modelo virtual e digital contemporâneo. Uma transa com De Palma, um pouco de Hitchcock e toda uma questão clássica que vai circulando a obra para criar o monumento entre alguns desajustes da burguesia. 

O gênero aqui vai se intercalando entre o drama, suspense e terror, nada muito concreto. É um projeto onde fica claro que havia uma consciência clara das atitudes ali tomadas, mas nada funciona na prática. A esquemática entre os três nortes, parece mais uma perda de rumo, aliada a funcionalidade programática, que um barato que vai crescendo até chegar nesse clímax de tensão mais incisiva. O problema é que até chegar ali, boa parte dos espectadores já perderam a paciência com a burocracia dramática e com uma narrativa que se torna cada vez menos interessante e exponencialmente mais chata. As bases dramáticas de “A Mulher na Janela” são frágeis e exploradas pelos tons expositivos de personagens que vão e vem na narrativa, isso cria vácuos que o longa tenta tapar com um elenco estrelar, perseguindo as interpretações atrás de ambiguidades severas, até molda algumas, mas não explora nenhuma com rigor. Por essa razão, tudo no filme soa canastrão e deslocado, são múltiplos eixos para “montar um quebra-cabeça” que quando é revelado desanima ainda mais o espectador que se esforçou para chegar até ali.

Por mais que o trecho final possua algum mérito no entretenimento pela violência fajuta, a construção é de uma chatice ímpar e a verdade por trás de tudo não consegue sustentar uma série de desfalques que a obra vai criando. Anthony Mackie surge no longa para inflar o elenco e não consegue possuir impacto nas assombrações da protagonista. Gary Oldman faz mais do mesmo, o explosivo surtado e violento, com os eternos tremeliques na boca. Moore faz uma personagem interessante que gera algum reboliço, mas é rapidamente descartada. E Amy Adams faz o de sempre. A obra até é consciente desses espaços e trabalha para que eles criem sugestões que possam bagunçar a cabeça do espectador, porém nada dá certo e toda essa proposta em torno dos desejos, medos e o eterno fetiche pela violência que o cinema norte-americano perpetua, vão se diluindo em uma história que mantém a necessidade nos minutos finais para tentar recompensar o público. 

“A Mulher na Janela” de Joe Wright é mais uma mostra de como o diretor possui uma dificuldade assombrosa em sair dos grilhões industriais em seus dramas e remonta alguns problemas antigos de sua cinematografia, trabalhando em torno de adaptações e possuindo uma dificuldade notável em sustentar uma forma que persegue as particularidades textuais. De toda sua cinematografia, é possível pensar que o longa da Netflix chegou mais próximo de relacionar de maneira menos tacanha os recortes que procura, mas ainda mantém os problemas primários. Se essa exposição é o que fez alguns espectadores se interessarem pelo filme, sua mise-en-scène busca um rigor formal a partir dos dispositivos maneiristas, uma espécie de acordo imediato com a base dos clássicos que ele persegue. Está certo que é um De Palma meio fajuto, mas os esforços mostram, ao menos, uma combinação com alguns pontos basilares da filmografia de alguns mestres do suspense.

Contudo, Wright parece se esconder atrás desse esquema de farsas e realidades, acreditando pouco no próprio projeto, funcionando no automático e tornando tudo muito burocrático e programático, como grande parte de sua obra. Sem dúvida de “O Destino de Uma Nação”, “Hanna” e “Pan” para “A Mulher na Janela” existe um abismo, se antes era quase impossível terminar o filme, agora dá pra ver um diretor que erra, mas tenta se encontrar.

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