A Mulher da Luz Própria | Crítica

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Poesia formal

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineOP 2019

O que falar sobre Helena Ignez? Ao mesmo passo que temos tudo à falar, não temos nada, pois não é possível conceber a imensidão desta Mulher. Comumente vemos retratos pouco honestos sobre ela, pois, irão tratar de suas aparições nos filmes e de sua relação de trabalho com os diretores, e nesta proposta acabam sobrepondo a imagem deles à dela, refletindo que, no fim, ela serviu mais de ponto de partida que necessidade de expressão em si, para estes filmes.

Sinai Sganzerla (de “O Desmonte do Monte“) parte um ponto diferente, ela abre uma recusa a condição de relações com os diversos nomes que atravessam sua história, transformando seu filme em algo necessariamente direto, a decisão é perfeita, pois somos capazes de observar Helena, sendo… Helena, nunca a “mulher de, namorada de, viúva de”. A beleza do filme reside no sincero e tocante ato de admiração, não de uma carreira, mas de uma Mulher que teve que enfrentar a ditadura e o machismo com uma liberdade e potência admiráveis.

É emocionante ver um delicado registro temporal dessa personalidade em suas intimidades, as inéditas imagens utilizadas no longa são de uma beleza estonteante e ser capaz de acompanhar suas falas, parte de suas ações e consequentemente sua vida, é um ato único. Sinai enquanto filha, possui uma questão na realização, compreender onde termina a filha e entra a cineasta, porém, suas decisões demonstram uma maturidade no olhar tamanha, que essa “barreira” não existe aqui. Sua estrutura acompanha um processo elíptico que não permite a digressão na construção, tudo está no lugar que deveria estar. Transitando entre imagens de arquivo e filmagens contemporâneas, a poesia documental se instala em um ritmo suave, abarcando sentimentos imensos com uma leveza própria da cineasta. O frenesi reconhecido de Helena, em seu primeiro momento, e o contraste com sua pureza posterior, demonstra uma verve artística que reflete a personalidade de ambas, pois concatenar tais visões em uma obra, é simplesmente complicado.

É possível crer que ceder a determinados materiais tenha sido um exercício de desapego doloroso, mas a autora demonstra a possibilidade de abarcar tal imensidão e volume poético com as pequenezas da narrativa da vida. Não existe objetificação da persona, muito menos da Mulher, mas um altruísmo mútuo que permite o público sentir que a grandeza tá no olhar externo, pois no interior as sutilezas reinam a intimidade, e uma pessoalidade sensível à maior poesia humanística e combatente que existe. O filme é preciso em humanizar Helena mas enaltecer o preciosismo de uma vida constantemente em batalha, por seu próprio corpo e liberdade individual, mas sobretudo coletiva.

A cólera vivida na efervescência da resistência à ditadura não era uma vivência momentânea que fez seu papel em seu tempo, pois as questões enfrentadas acabaram atravessando sua vida, e o continente, já que o exílio era uma atitude necessária. A sobrevivência era um recurso que se corria à intimidade do devir artístico.

E neste ponto, Sinai flerta com o ensaio de maneira anacrônica e mantém o status fluente da criatividade da forma. Costurando entre um momento mais difícil, onde o ir e vir foi engessado pela opressão, e o flerte direto da dimensão libertina, a montagem é eficiente em nos fazer refletir sobre uma vida com potência própria que está acima da própria imagem de Helena, mas em seu corpo e sua história. No texto dito por Helena, encontramos parte sua (re) visão do passado e suas palavras ecoam pelo fluxo imagético enquanto o movimento se concretiza em uma dança regida por suas memórias. Em uma delas, escutamos sua decepção de ter vendido o apartamento para produzir um filme de seu marido e não ser creditada. Em uma época onde negar os louros às mulheres era o padrão, infelizmente se mantém em diversos casos, Ignez lembra com uma calma que transpassa uma decepção, os casos que marcam na pele seus esforços por homens à sua volta, quase nunca compreendidos.

A Mulher que possui luz própria não diz respeito apenas a Helena, mas a todas as Mulheres, aqui com um espelho referencial, guiado por Eros, Thanatos e Helena Ignez, acima de categorizações e rótulos. Sempre Helena.

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