A Morte Habita à Noite

A margem e o tempero

Por Vitor Velloso

Durante o Cine Ceará 2020

“A Morte Habita à Noite” de Eduardo Morotó é uma obra que busca algumas aproximações com aquele sentimento autodestrutivo da burguesia, a partir de uma exposição da marginalidade brasileira. Em suma, a obra se molda em torno do sentimento dos frequentadores dos caros bares da zona sul carioca, com dízimo de entrada para o harém de ideias tortuosas, choros desinibidos e uma discussão etílica filosófica da realidade nacional. Política, cachaça e tabaco são forças uníssonas em qualquer recinto que se preze, mas para a burguesia o passatempo é o fetiche, o mito dessa cultura. E o longa que abre o Cine Ceará é a encarnação do espírito de digressão a partir da inércia da miséria.

Porém, uma rebeldia que tenta se projetar com o rigor formal intenso, a partir de uma linguagem que parece muito consciente de si, uma espécie de aceitação do palco como o cenário criativo da obra. O tempo inteiro sentimos que estamos em um estúdio, o peso dos cortes, dos enquadramentos e da iluminação que possui umas referências parcialmente lúcidas, de Costa à Dutra. Mas para que “A Morte Habita à Noite” funcione dentro do espectro arquitetado, é necessário ceder ao inócuo, ao looping de erros e aos excessos que misturam o álcool e o câncer crescente com esse rigor formal que mais parece querer os louros de uma “desglamourização” que necessariamente fincar um problema social que se encontra às margens. Se existe essa dúvida durante a exibição, a mesma finda nos créditos finais onde vimos uma realidade brasileira ser moldada à estrutura dele… o famigerado Bukowski.

Se “Deus e o Diabo” limita sua representação na encenação do sertão, o quadro apenas fixa o olhar, o longa de Morotó está mais interessado na universalização que na brasilidade da coisa, um erro que Claudio Assis tira de letra em seus devaneios com rigor formal não tão distante. Tomemos de assalto a digressão feita para lembrarmos que “Baixio das Bestas” e “Febre do Rato” são obras com recorrências próximas, mas com a compreensão de mise-en-scène que é construída em torno dos desdobramentos que o pensamento do filme em questão vai articulando. Morotó tenta alcançar isso, mas falha por não trair essa regionalização suspensa de qualquer localidade. À margem, nem tudo se assemelha, as Histórias se diferem em cultura e urbanização, mas “A Morte Habita à Noite” fetichiza o ponto da cultura marginal de excessos explícitos para concatenar um imaginário onde o drama de seu personagem central, interpretado por Roney Villela, se torna ponto de objetificação para o áspero da realidade.

É uma pena, pois Villela entrega um belo trabalho, consegue criar uma dualidade em torno de camadas distintas da trama em si. E esse formalismo até consegue alguns feitos interessantes, em especial na primeira metade, pois articula uma quebra de expectativa e fluxo, tanto por seus enquadramentos com rigorosa dicotomia com a montagem (o preço é o ritmo irregular) quanto pela maneira como os personagens estão moldados diretamente pelo cenário, que encrosta a célula cancerígena da degradação moral. O ponto limítrofe entre o orgulho e a dignidade são miragens absolutas, a dignidade é uma questão abdicada por seus personagens. O negócio é meter, fumar, beber e driblar a morte pelas ruas e vivências. O potencial é imenso, de Exu à giras que a cultura poderia promover no imaginário das entranhas sincréticas da brasilidade de birosca. Mas o glamour desse freixo basilar sempre está norteado pela romantização de arquétipos sucintos de seu protagonista, que viu a morte várias vezes.

Poderíamos imaginar um homem que enfrenta a morte em uma briga de espadas, como Domingues um dia profetizou, mas “A Morte Habita à Noite” parece se comportar como quem recusa essa gangrena exponencial, inevitável, que está sempre à espreita do subdesenvolvido, mas o consenso da produção cinematográfica parece recorrer sempre à demanda da burguesia e sua falsa oferta de mercado. O barato do cinema brasileiro contemporâneo é o imbróglio entre os grilhões da dependência burguesa e as cifras possíveis em um desenho minimamente autoral. Tem maneiras mais honestas de fazer um arroz com feijão, mas com tempero industrial, o negócio fica sem gosto mesmo.

Trailer

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