A Maratona de Brittany

Comércio audiovisual ideológico

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Além das comédias pastelonas, dramas motivacionais e um conceito brevemente progressista (ainda que com viés duvidoso), a grande indústria costuma unificar um senso comum para lucrar sem dificuldade nas bilheterias mundiais, não à toa, o público reconhece estes padrões com certa facilidade, e anseia pelo retorno desses mesmos pelo hábito de se sentir seguro em meio às produções. “A Maratona de Brittany” aglomera diversos clichês diferentes em um só projeto e transforma algo potencialmente divertido, em um Frankenstein canhestro genérico.

Dirigido por Paul Downs, o longa incrementa diversos elementos distintos, que vão abarcar a relação das pessoas com seus corpos fora do padrão, as necessidades de um mundo contemporâneo em vender a ideia da saúde advinda de instituições, e do capital. O projeto concretiza o espírito estadunidense em um amalgama de relações com autoestima e relacionamentos, porém, costura tudo isso de maneira tenebrosa com uma personagem que representa grande parte da população norte-americana, de maneira unilateral, por vezes desrespeitosa, não compreendendo a real motivação de uma metamorfose corporal e psicológica.

A maneira que se desenvolve o drama e a situação geral da personagem é de uma verticalidade tão estrutura ao fracasso, que corrói a narrativa de maneira a transformar todas as tentativas de piada em um mar de silêncio durante a projeção. E com esses momentos, o longa vai perdendo força a cada cena, ao chegarmos na metade, é possível sentir repulsa pelo discurso pseudo-progressista que abraça as questões da ideologia norte-americana como uma causa a ser seguida.

Enquanto o espectador é bombardeado dessa toxicidade política, enquanto o diretor esta preocupado em construir alguma autoria nessa confusão narrativa que se instala e se auto-destrói no terceiro ato. A tentativa de conciliar a comédia pastelão com uma mensagem de superação, dá ao filme o tom mais ridículo possível, pois as cenas que buscam uma dramaticidade com relação aquele momento da personagem, se tornam uma piada constante, já que as atuações e os diálogos, com a montagem sofrível, dão voz à mediocridade generalizada da produção.

A fotografia de “Maratona com Brittany” segue o padrão do mercado, se restringindo à realizar e escancarar (inconscientemente) a fragilidade de tudo que está rolando no écran. Jillian Bell, que interpreta a protagonista, não se esforça em construir nada maior que a obviedade da trama, conceituando toda a ideologia tórrida de maneira a simplificar as características básicas de uma pessoa que se rende à propaganda “contemporânea” do health ( que vem dos anos 80) e vira parte de uma engrenagem, usando como desculpa a motivação da autoestima, logo uma virtude individual, questão básica da política neoliberal. E enquanto a publicidade disfarçada de cinema toma conta da sessão, o roteiro se esgota em trinta minutos de projeção, por não saber estruturar o drama da protagonista em uma linha narrativa que siga uma construção direta, sem intervenções que atravessam o texto.

Não à toa, é investido muito tempo de tela, em coadjuvantes que não acrescentam dramaticamente ao roteiro, mas sim como uma desculpa sem rodeios para atitudes futuras de Brittany. Ainda que elas desrespeitem uma progressão textual lógica, ou seja, viradas de trama que não condizem com a própria temática da obra. Paralelo a isso, as partes técnicas se aliam ao processo descontinuo de um drama que respeita a indústria hollywoodiana, demonstrando o processo volátil de criação de um filme como este, preocupado única e exclusivamente com os números da bilheteria e em engatilhar rapidamente (emocionalmente) o público-alvo. Não por acaso, as soluções se dão em desfechos mínimos e velozes, com problemáticas rasas que variam entre uma demonstração de demência dramática e preguiça estrutural.

Claro, tais indicações não são exclusivas de “Maratona com Brittany”, mas sim de uma indústria ideologicamente decadente e politicamente imoral. Logicamente respeitando a política do país, o longa não consegue fugir dessa futilidade inerente à quase tudo que se produz no norte da América.

O processo de alienação não consegue se distanciar da população de maneira não nociva ao próprio desenvolvimento de uma sociedade baseada neste comércio audiovisual ideológico.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *