A Mão de Deus

Uma investida ao caos

Por Vitor Velloso

A Mão de Deus

Paolo Sorrentino não é unanimidade entre a crítica e as opiniões costumam acompanhar certo exagero, no amor ou no ódio. Seu novo projeto, “A Mão de Deus”, torna-se uma espécie de síntese do que já apresentou na carreira, como uma grande homenagem à tradição do cinema italiano, tentando reinterpretar o processo de amadurecimento e a passagem do tempo. Tal temática é amplamente trabalhada na cinematografia de Sorrentino, especialmente nas insistentes aproximações com Fellini, razão da polarização de suas impressões. Frequentemente essa fórmula demonstra alguns desgaste, tornando a experiência relativamente enfadonha e saturada.

Possivelmente, os fãs do diretor irão identificar diversas características que os agradam, desde o humor que flerta com as tendências suicidas, quanto os amplos espaços que demarcam a dimensão dessa narrativa em contraste com a construção dramática de seus personagens. A grande questão é que “A Mão de Deus” não consegue sair da opacidade aparente e se torna uma tentativa infantil de reprodução do caos de “Amarcord”. Em suma, torna-se um fetiche pouco produtivo que expõe uma série de fragilidades nas ideias que o cineasta reproduz à exaustão. Todavia, Toni Servillo é capaz de salvar algumas sequências de um vexame inevitável, já que o ritmo fragmentado permite que suas reações mais escabrosas deem lugar a alguma comicidade funcional. Da mesma forma que essa particularidade humorística dialoga com a representação de um contexto onde a ida do Maradona à Napoli era tanto um sonho quanto milagre, o próprio título se torna um elemento irônico. Mas as resoluções não conseguem se desvencilhar do esgotamento que Sorrentino provoca em suas imagens e arquétipos. Aquilo que é divertido inicialmente perde força progressivamente, ao ponto de tornar-se tedioso. Um exemplo disso é a maneira que o filme explora os desejos sexuais e as frustrações amorosas de seus personagens, com visíveis excessos que dão lugar às repetições.

Assim, conforme as cenas se repetem, sempre apelando para algum delírio, elementos absurdos e movimentos de câmera delirantes, o cansaço é inevitável e a sensação é que “A Mão de Deus” queria ser algo mais volátil que de fato é. Quanto mais o diretor insiste que esse universo não possui um eixo gravitacional que sustente suas digressões, mais nos aproximamos dos fracassos monumentais de “A Grande Beleza” (2013) e seu ritmo arrastado. Aliás, os próprios méritos de “Youth” (2015), como o conflito geracional e a construção da melancolia através da analogia temporal, se perdem aqui, dando lugar à uma zona de conforto. Nesse caminho, as referências cinematográficas vão se amontoando, Fellini parece cada vez mais distante e as cenas apenas tornam-se reflexo de uma interpretação precipitada das distorções da realidade. De súbito, a obra muda sua condução narrativa para mergulhar em uma dualidade sentimental, entregando-se do riso à lágrima em uma velocidade pouco convincente e ainda menos eficiente.

O maior problema de “A Mão de Deus” é que sua ambição é fabulesca e a execução é pragmática, pendendo para o mimetismo barato. Não por acaso o trabalho da direção de fotografia assinado por Daria D’Antonio é pouco criativo, sempre procurando um contraste que possa estimular aquela paisagem a partir da falta de recortes graves, como quem investe na naturalização e confia na montagem para fragmentar as perspectivas. Porém, como tudo na obra, a montagem de Cristiano Travaglioli é engessada pelas reverências, pela plasticidade opaca e por toda uma inocuidade que apenas procura ampliar os espaços e criar verdadeiras paisagens egocêntricas da obsessão por Fellini, transformando a montagem em ciclos que dependem de um interesse na resolução de uma narrativa que nunca se encontra, apenas satura.

O novo longa de Sorrentino oferece munição para os dois lados que irão comentar sobre ele, em medidas parecidas. Mas até os fãs podem se frustrar com algumas decisões do diretor, especialmente na primeira metade. A unanimidade é burra e a polarização não é o melhor dos sinais, neste caso.

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