A Maldição do Espelho

Stranger Things em Hogwarts

Por Jorge Cruz

Não tenha medo de encontrar um terror à primeira vista superficial em “A Maldição do Espelho“. A história da Rainha de Espadas faz parte do imaginário russo assim como a saga de Harry Potter se perpetuará na cultura britânica. Baseado em um conto do início do século XIX de Alexander Pushkin, autor que faleceu muito jovem, porém é considerado o fundador da literatura russa moderna (seguido de perto por Gogol, Doistoévski, Chekhov e Tolstói). Ou seja, a geração de escritores mais espetacular que já habitou o planeta. No final daquele século outro gênio, Tchaikovsky, comporia para uma ópera em três atos baseada na personagem, criação cênica que virou dito popular russo até hoje (“a vida é apenas um jogo”). Se você alguma vez sacou o velho ditado “sorte no jogo, azar no amor”, saiba que essa turma possui total relação com isso. Trata-se da clássica história de uma representação sobrenatural que lhe concede desejos sem avisar que, na verdade, está comprando sua alma. Escute o disco da Xuxa ao contrário e talvez você entenderá.

Nos cinemas, a primeira incursão da personagem ocorreu em uma produção da terra de Harry Potter, em 1949 com o nome “A Rainha de Espadas“, mantendo a base de ser o protagonista um soldado russo em meio a um jogo de cartas. A obra concorreu ao grande prêmio do terceiro Festival de Cannes naquele ano (o vencedor foi “O Terceiro Homem” de Carol Reed, produção que tirou dele também o BAFTA de melhor filme britânico em 1950). A Rússia levou às telas sua lenda apenas em 2016, que no Brasil ganhou o nome de “Dama de Espadas“. Essa primeira atualização conta a história de uma diva da ópera que tenta encenar a clássica montagem de Tchaikovsky. O que era para ser um co-produção com os Estados Unidos, estrelada por Uma Thurman, se transformou em um retumbante fracasso, custando três milhões e meio de dólares e arrecadando 500 mil.

Todavia, esse “A Maldição do Espelho” dá alguns passos adiante na utilização da personagem, até mesmo para construir um potencial universalista, algo mais vendável no mercado externo. O fracasso foi quase o mesmo (custou um pouco mais de um milhão e meio de dólares e arrecadou o suficiente para se pagar), mas há uma formulação estética que, a despeito de beber infindáveis referências do Ocidente, soará bem mais interessante para os fãs do gênero do que as safras norte-americanas. Olya (Angelina Strechina) e Artyom (Daniil Izotov) são dois irmãos que, em uma discussão dentro do carro, acabam causando um acidente que vitima sua mãe. Enviados para um castelo-internato, no estilo de Hogwarts, encontra, por lá um espelho bem parecido com o de Ojesed (ou Erised, para os que leram a saga em inglês). Ao custo de ter os anseios do grupo de adolescentes que acompanham a dupla concretizados, alguns deles começam a sumir misteriosamente e a solução bidimensional emula com gosto a primeira temporada do seriado “Stranger Things“. Ser referencial não é crime e já tratamos na crítica de “Ameça Profunda” como essa proposta pode ser bem executada. Inclusive, as possibilidades visuais de um casarão dá início a um filme que, visualmente, é bem agradável de assistir.

Em um primeiro momento, parece que o roteiro de Maria Ogneva, autora novata, se inclinaria exageradamente na narrativa clássica de baboseiras similares do cinema de terror. As personagens se apresentam quase com uma cartilha dos estereótipos juvenis, como o revoltado e a patricinha. Ainda bem que essa trajetória formulaica não será preponderante para as ações. O texto utilizará algumas premissas e metáforas simples, que funcionam, todavia. A primeira delas diz respeito à culpa carregada pelos filhos que se sentem diretamente responsáveis pela morte da mãe. Esse inferno pessoal vai se unindo aos dramas comuns à idade dos colegas de escola. Com isso, ficamos conhecendo um garoto que não aceita a nova esposa do pai e uma menina que sente o bullying por conta de sua obesidade.

Se não há a fuga pelo clichê, “A Maldição do Espelho” pelo menos faz uma alquimia visual eficiente, bebendo de boas fontes do gênero. O famigerado jump scare está lá, mas usando com parcimônia. O escatológico também, em uma cena envolvendo a perda de dentes, sonho recorrente de quase todas as adolescências, onde somos impregnados pelo sentimento da insegurança. Utilizando elementos da natureza, todas as sequências envolvem fogo, água e ar, outra emulação comum. Mas, de sua maneira, o longa-metragem acerta o tom com essa linha de basear o horror nos traumas das relações familiares, deixando para a figura do espelho a metáfora do gatilho da depressão (que nem todos no filme conseguem superar).

Essa despreocupação em criar um universo próprio, se limitando a contar uma boa história, faz essa produção eficiente em sua proposta. Por óbvio que a conclusão, deixando em aberto a intencionalidade das ações de Olya (quando “espelhada” com a sequência inicial, de competição entre irmãos) está ali para cumprir uma espécie de pré-requisito de epílogos inseridos para ambientar uma sequência (ou série de produções). Todavia, mesmo essa sacada de Ogneva funciona na unidade fílmica. “A Maldição do Espelho“, é sobre as inúmeras obsessões adolescentes e uma lição de como ainda somos, nessa idade, incapazes de tomar decisões certas. A relação de causa e consequência é bem explícita. Focado nos protagonistas, ainda traz uma bela lição sobre os problemas da não aceitação da morte. Em uma fase do cinema em que não é preciso ser original para se destacar, talvez essa obra merecesse uma chance – que virá somente no caso daquelas refilmagens pavorosas do cinema de cooptação norte-americano.

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