A Hora da sua Morte

Tinder Mortal

Por Jorge Cruz

A Hora da sua Morte” mantém uma velha tradição do terror adolescente: desperdiçar boas premissas, optando por produzir mais um enlatado esquecível para adolescentes consumirem no excessivo tempo livre à sua disposição. No caso do filme dirigido por Justin Dec (estreante em longa-metragem, porém com larga experiência como assistente de produção) tanto argumentos clássicos como ultramodernos desfilam pela tela em um desenvolvimento desinteressante, formulaico e esquecível.

A forma clássica de se pensar a obra é a atualização da grande luta de qualquer ser vivente: evitar a própria morte. Quinn (Elizabeth Lail) é uma enfermeira que consegue a informação que todos nós gostaríamos de saber e que, de certa maneira, materializa a finitude da nossa existência: a hora de sua morte (como o título em português já diz). Para ser mais preciso, ela terá três dias de vida – desde que não atue contra os termos e condições do aplicativo de celular que ela usou para ter ciência disso.

Pois a originalidade de “A Hora de sua Morte” reside justamente nessa abordagem contemporânea, como se pudéssemos virtualizar o jogo dos espíritos, eis que a pós-modernidade não nos permite mais nos reunir em volta de um tabuleiro ouija. A maldição surgir a partir de um gadget faz com esse gênero o que filmes como “Celular: Um Grito de Socorro” (2004) fizeram com o cinema de ação. Ao contrário do bem-sucedido  “A Morte te dá Parabéns” (2017) e sua continuação A Morte te dá Parabéns 2 (2019) em que o aparelho telefônico é um elemento narrativo, um gatilho para o espectador, aqui ele é peça fundamental. Essa premissa se potencializa no roteiro do próprio Dec com essa brincadeira sobre os termos e condições que nunca lemos.

Ao contrário do longa-metragem de Christopher B. Landon, que fez a Blumhouse transformar cinco milhões de orçamento em mais de 120 milhões de bilheteria, essa produção é quase um “terror adolescente para leigos”. A inocência exigida de quem assiste deve ser quase a mesma de seus realizadores. Talvez alguém que tenha abandonado o cinema, passando um pouco mais de duas décadas sem assistir a um filme de terror, tenha alguma chance de tirar proveito do longa-metragem. Aquela ideia que Justin Dec teve em alguma mesa de bar, em sonho ou como epifania, capaz de rejuvenescer o gênero, se apresenta como um compilado de cenas carregadas de obviedade. A não ser, claro, que você seja o público-alvo da obra: adolescentes que ainda não tiveram a oportunidade de consumir muitos filmes parecidos.

Pode até soar debochado (mas não é). O fato é que “A Hora de sua Morte”, na teoria, tem uma força narrativa semelhante à trama de “Minority Report: A Nova Lei” (2002). Essa construção filosófica do quanto o nosso destino deixa de ser por nós conduzido quando recebemos informações do futuro, já era tratada por Philip K. Dick nos anos 1950 e virou entretenimento de qualidade nas mãos de raposas velhas como Steven SpielbergTom Cruise. O tempo como verdadeiro antagonista é a grande semelhança, mas a diferença ultrapassa a simples análise qualitativa. O filme protagonizado por Elizabeth Lail consegue tropeçar de novo quando já está caindo ao não se manter fiel à sua proposta.

Não bastasse a segmentação narrativa, o roteiro faz a mesma coisa com a linguagem. Insere personagens já na parte final do desenvolvimento, cada qual com um objetivo, atirando a esmo. Padre John (P.J. Byrne) parece um ensaio de alívio cômico extremamente mal concebido, uma figura nonsense tirada do fundo da bolsa. Enquanto isso, Matt (Jordan Calloway) surge quase na metade da obra para ser um par romântico, porque o amor precisa estar no ar no cinema norte-americano, mesmo quando um aplicativo diz que você morrerá em algumas horas. Essas construções afobadas acabam gerando uma falta de unidade comportamental das personagens, contribuindo ainda mais para a sensação de que há ali uma salada de gêneros “destemperada”.

Por fim, há dois momentos em que o filme tenta tratar de assuntos mais urgentes na sociedade – falhando miseravelmente mais uma vez. O primeiro é trazer o assédio no ambiente de trabalho como tema, porém com uma representação tão autônoma que podemos considerar uma esquete. O segundo é a construção metafórica do clímax da obra, que tenta replicar a originalidade do argumento na fase conclusiva, criando uma metáfora sobre o patriarcado. O problema é que essa abordagem não dialoga com a lógica construída pelo texto nas mortes que se sucederam, por melhores que sejam as intenções. Sem querer confundir os críticos do Vertentes do Cinema e citar Glauber Rocha, mas talvez “A Hora de sua Morte” seja a prova de que “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” não é o suficiente dentro de uma cultura que consome tanto (e há tanto tempo) audiovisual.

 

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