A Febre

Entre dois mundos próximos e realidades distantes

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

Febre é um sintoma que gera o aumento da temperatura do corpo acima do limite normal, em resposta a uma doença ou perturbação orgânica. É um “pedido de ajuda”, uma indicação-alerta à necessidade de cuidado e da inflamação causada para curar. “A Febre” (2019), o mais recente filme da realizadora  Maya Werneck Da-Rin (de “Terras“), prescreve uma imersão sensorial de reconexão (assaltada pela urgência de sua conservação e salvamento) pelo efeito físico (de dentro) para metaforizar a essência indígena (de fora) de algo invisível que ronda como uma força misteriosa de mudança ao encontro do novo acordar do estágio entorpecido que o mundo se encontra.

Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2019, “A Febre” é um chamamento da ancestralidade para guardar raízes, memórias e pequenas simplicidades do agir, impedindo o esquecimento de quem se é por imposição dominadora dos que desejam a transmutação comportamento-existencial, desses seres alienígenas de si mesmos. A narrativa contempla não só o tempo como as expressões dos rostos em aproximações e afastamentos de câmera, traduzindo um transe, mostrado editado e mais encenado, a fim de explicitar a estética-movimento da imagem e de sua ambiência. Há vida cotidiana. O protagonista Justino volta do trabalho, de ônibus, em pé. A casa é humilde, embalada pelo vento (ora artificial para sinalizar a crítica de que a realidade perdeu seu característico e próprio elemento real) e a chuva, que se tornam personagens-companheiros de cena. A fruta, as histórias, a língua indígena e os calafrios retratam a naturalidade de um lugar mais afastado do centro de Manaus e mais próxima à entrada “urbana” da Floresta Amazônica.

O longa-metragem desenvolve-se como uma passagem, à moda referencial de “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul. Aqui é sobre “ossos frágeis por conta da comida do supermercado”. Uma fábula indígena, de mistério espectral, por contos-de-fadas, servida com “cerveja de mandioca”. “Não sei como voltar para casa”, diz-se com a percepção de um viajante preso entre tempos e espaços. Justino, desatento e desconcentrado no trabalho, começa a perder a energia, a força, a motivação. E a ganhar o medo da “advertência, suspensão e justa causa”. Sua filha está prestes a estudar Medicina em Brasília. Sua febre não cessa. O realizador indígena Alberto Alvares disse em uma de suas entrevistas que é preciso rezar todos as noites para acordar o amanhã. Sim, “A Febre” quer trazer à tona a luta entre o bem e o mal e a aceitação da nova condição versus apagar a cultura natal (a origem), “caboclos” em  questões latentes e de “ferida aberta”. A câmera agora aproxima mais e nos apresenta um balé das engrenagens das máquinas e das “espécies exóticas” até se estagnar no estático. “Saudade faz parte; vai e se não der, volta”, diz-se. Cada vez as aldeias ficam mais distantes.

“A Febre” também é um crítico estudo observacional sobre o impedimento do indígena de conservar e manter sua cultura. Um dos exemplos é a “Dipirona”, que “pode recuperar”. As ervas que “afinam o sangue” são tratadas como obsoletas, quase “lendas” não comprovadas. “Quando um índio usa os brancos torna-se um e enfraquece”, como o perigo da tocaia e “cercados sem pressa”. A febre vai e volta alertando que não se pode mais esperar à radicalidade de um “índio de verdade”. Essa antropologia modernizada quer sinalizar a crueldade e violência da destituição de personalidades. De alterar um habitat com a promessa do “progresso”. De “embranquecer” os verdadeiros donos da terra por um mal espreitado. Uma linha desalinhada dos cosmos. Uma rachadura gerada pelos próprios humanos pensantes e de consciência inteligente.

Nós espectadores somos convocados a adentrar essa expedição de análise antropomórfica de seres deslocados em novos ambientes de hostilidade reinante (e que perderam há muito a humanidade). Como se reconectar? Como encontrar o equilíbrio do corpo? Como impedir que essa perturbação orgânica cause a febre, um mecanismo de defesa? Todos os sintomas de Justino representam seu último resquício de cura. Deixar de sentir o incômodo é compactuar com a perda de seu passado. É entrar no estágio letárgico de zumbis esperando a própria morte com falsas felicidades consumidas. Nosso protagonista, que nos faz remeter ao filme “Luz nos Trópicos”, de Paula Gaitán, vive entre dois mundos bem próximos: a estrada e a floresta. A artificialidade e a natureza. O que fazer e o que escolher não dependem apenas dele e sim de toda uma engrenagem que precisa ser remontada para todo esse futuro em “construção”.


Ao longo de sua carreira em festivais, “A Febre” recebeu mais de 30 prêmios até o momento e foi selecionado para ser exibido em mais de 60 festivais ao redor do mundo. Na sua estreia mundial, no Festival de Locarno, na Suíça, “A Febre” levou três prêmios para casa: o Leopardo de Ouro de Melhor Ator, para Regis Myrupu, o prêmio da crítica internacional FIPRESCI e o prêmio “Environment is Quality of Life”. A Febre foi eleito ainda Melhor Filme em festivais na França, China, Argentina, Portugal, EUA, Uruguai, Chile, Peru, Alemanha e Espanha. No Brasil, o filme conquistou cinco candangos no 52º Festival de Brasília – Melhor Longa-Metragem, Melhor Direção, Melhor Ator para Regis Myrupu, Melhor Som e Melhor Fotografia – além dos prêmio de Melhor Direção e Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio e Melhor Filme e Melhor Som no Janela Internacional de Cinema do Recife.

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