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A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Deu a louca na Alexa

Por Vitor Velloso

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Apesar da indicação ao Oscar 2022, na categoria de melhor longa-metragem de animação, “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” tinha poucas chances de ganhar, já que veio a competir com o poderoso lobby da Disney, mas conseguiu a simpatia de uma quantidade expressiva de espectadores ao longo de sua breve campanha.

O filme é dirigido por de Michael Rianda e co-dirigido por Jeff Rowe e conta a história de uma família que é obrigada a lidar com o apocalipse das máquinas enquanto resolve seus problemas internos. A ideia da máquina indo contra o “progresso” da humanidade não é nova, nem mesmo na tentativa particular de tornar o processo ainda mais pessoal. Ainda assim, o projeto é hábil na maneira com que constrói essa narrativa a partir dos traços espalhafatosos e cartunescos, lembrando um quadrinho que se coloca na situação de criar onomatopeias, ou mesmo, traduzir de maneira “cômica” alguns acontecimentos na trama. Essa estratégia funciona parcialmente, já que “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” não tem a pretensão de inflar novos debates em torno das máquinas se revoltando contra os humanos. Aqui, a intenção é a de criar uma série de estímulos visuais capazes de instigar o espectador a permanecer na experiência de um constante fluxo de informações, tal como um feed de rede social. Não por acaso, diversos filtros e breves montagens paródicas podem ser vistas ao longo da projeção.

Contudo, se a obra é capaz de criar essa espécie de engajamento semi-interativo, também peca na maneira com que dinamiza seus acontecimentos, em especial, a partir da introdução dos personagens presentes no título: os robôs. Aqui, há uma via de mão dupla, se por um lado consegue usufruir das vantagens que as sequências de ação podem proporcionar, por outro, perde muita força na relação de seus personagens, forçando determinadas questões dramáticas que acabam cruzando a aventura. Neste ponto, há uma dupla funcionalidade desse investimento agudo na particularidade familiar, pois fortalece seus laços e permite o espectador compreender as dificuldades enfrentadas por ambos os lados, reforçando que as memórias fazem parte desse contexto. Porém, também cria uma interpretação de como a maior presença no cotidiano, aliada a redução na utilização dos aparelhos digitais, provoca um novo arranjo para essa família.

“A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” é um produto de ironia particular já que seu consumo se dá através da plataforma de streaming da Netflix e promove um menor engajamento com as luzes azuis das telas dos smartphones, sendo esta uma das formas mais utilizadas para projetar seus produtos. Está claro que de alguma forma esse apelo moral promovido aqui, pode ser entendido como uma das razões que transforma o longa em um desses projetos capazes de agregar todo o grupo familiar em torno de uma única experiência, mas não deixa de ser curioso notar que as preocupações contemporâneas em torno da relação humano x máquina já não possui as mesmas características de décadas atrás, ainda que de alguma forma o roteiro de Michael Rianda e Jeff Rowe, diretor e o-diretor respectivamente, siga reproduzindo determinados paradigmas.

Em algum grau, o grande atrativo da animação da Sony Pictures Animation é um carisma que une suas discussões nas relações com a grande dinâmica promovida pelos desenhos e traços, saturando a imagem com tanto conteúdo, que essa suposta poluição visual faz parte de uma espécie de metanarrativa, onde a protagonista Katie (Abbi Jacobson) manipula parte dessa imagem como uma obra intelectual, em uma montagem posterior aos eventos do filme. Esses inúmeros excessos em tela: memes, inserts, repetições de movimentos, onomatopeias, reforços dramáticos etc, vão se amontoando por capricho e/ou intenção de mostrar a multiplicidade de informações visuais. De toda forma, “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” é uma divertida película que sabe bem como funcionar diante dos estímulos do mundo digital, ainda que seja genérico em todas suas outras investidas. Aliás, Olivia Colman na voz de Pal, a Alexa 60.0 e ressentida, é um bom adicional para a construção do longa.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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